terça-feira, 30 de abril de 2013

II Celebração das Culturas dos Sertões


Em maio de 2012, um público de mais de mais de nove mil pessoas participou de diferentes atividades artístico-culturais em Salvador e Feira de Santana, durante a realização da primeira “Celebração das Culturas dos Sertões”. O evento, uma iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), conseguiu reposicionar as culturas dos sertões na agenda política e cultural do estado, alcançando grande visibilidade na mídia baiana e repercussões na imprensa do Brasil. Este ano, a Secretaria realiza a segunda edição do projeto em Salvador e em Juazeiro, cidade às margens do Rio São Francisco, rica em cultura e tradições. Entre os dias 3 e 11 de maio de 2013, a SecultBA realiza a II Celebração das Culturas dos Sertões.

“O evento realizado no ano passado reuniu artistas, instituições e estudiosos da Bahia em torno de discussões e atrações que demonstraram um pouco da diversidade das culturas dos sertões”,

afirma o secretário de Cultura do Estado da Bahia, Albino Rubim, que comemora a mobilização da sociedade e da comunidade cultural em torno do tema. “Ficamos muito satisfeitos com os resultados de público e de visibilidade que conseguimos dar à riqueza das culturas dos sertões, que é marcante na formação da identidade cultural baiana”, ressalta. O sucesso da proposta da primeira edição fez com que fosse mantida a variedade das atividades do evento, com uma programação formada por oficinas, exibição de filmes, cortejo pelas ruas da cidade, encontros de estudos, aulas-espetáculos, exposição de artes, lançamentos de filmes, livros e CDs e apresentações musicais.

Confira a PROGRAMAÇÃO COMPLETA no site oficial.

Livro: O Fole Roncou!



Desde que Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira ensinaram ao Brasil como se dança o baião, nos anos 1940, nossa música nunca mais foi a mesma. Ao baião juntaram-se xaxado, coco, arrasta-pé, xote e outros ritmos nordestinos: assim nasceu o forró. Sete décadas depois, ele resiste como um dos mais autênticos gêneros musicais brasileiros, sobrevivendo aos modismos, às bruscas mudanças do mercado fonográfico e ao desaparecimento de alguns dos seus principais representantes. A partir de mais de oitenta entrevistas, além de ampla pesquisa em documentos inéditos, "O Fole Roncou!"

Uma história do forró reconstitui a trajetória desse estilo musical, cheia de episódios marcantes da vida de nomes como Gonzagão, Jackson do Pandeiro, Marinês, Dominguinhos, Trio Nordestino, Genival Lacerda, Anastácia, Antonio Barros, entre muitos outros.

Histórias de sanfona, suor e chamego, protagonizadas por expoentes da música brasileira popular, contadas no ritmo contagiante dos gigantes do forró.

Leia um trecho abaixo:
Introdução
Onde estão os mestres da cantoria?

Era maio de 1934, e Luís estava bem contrariado. Acabara de percorrer 1.307 quilômetros de estrada de terra no interior do Rio Grande do Norte - "837 de automóvel, 40 de auto de linha, 38 de trem, 30 de canoa, dois de rebocador e 360 de hidroavião" - para constatar que o sertão se esvaía. Notou que a região mais árida do estado atravessava processo de irrefreável mudança porque "a vida transformou-se: as rodovias levam facilmente as charangas dum pra outro povoado. Encontrei jornais do Rio e de São Paulo por toda parte: o sertão descaracteriza-se. É natural que o cantador vá morrendo também."

Integrante da comitiva do interventor federal Mário Câmara, Luís da Câmara Cascudo tinha 41 anos quando foi incumbido de registrar o que viu, ouviu e sentiu nas andanças pelo interior do seu estado. Acompanhado por técnicos em educação, agrônomos e especialistas em construção de açudes, o bacharel Cascudo andou

_a pé, de cadeirinha, de macaquinho, dentro d'água, na lama, nos massapés,_
pulando cercas, saltando de pau em pau os roçados que a enchente
circundara, correndo nos panascos, empurrando o auto, trabalhando de
pá, carregando maletas, levando os companheiros no ombro, livrando os
xique-xiques, galopando a cavalo, apostando velocidade nas retas areentas.

Diz ter superado a fome, o frio das roupas molhadas, o cansaço das caminhadas e "a mania obsequiosa do sertanejo oferecer-nos galinha e macarrão, em vez de carne de sol e coalhada". O resultado da viagem resultou em dezoito crônicas publicadas originalmente no jornal potiguar A República e posteriormente editadas pela Imprensa Oficial no livro Viajando o sertão.

Macau, Açu, Caraúbas, Paraú, Apodi, Santa Cruz, Pau dos Ferros, Cerro Corá Cidades, vilas e povoados receberam a visita da comitiva federal. Em boa parte dos lugares, Cascudo debateu o tema recorrente, o "cangaceirismo". Se ouviu e concordou com as palavras de admiração a respeito do cangaceiro Jesuíno Brilhante ("gentil-homem, admirado e senhorial como um Robin Hood"), não dispensou o mesmo tipo de tratamento ao mais famoso deles, Virgulino Ferreira: "É malvado, ladrão, estuprador, incendiário, espalhando uma onda de perversidade inútil e de malvadeza congênita onde passa." Mesmo assim, reconhece que Lampião reinava de forma incontestável na imaginação sertaneja, ainda mais depois de seu bando atacar Mossoró, em junho de 1927, e os moradores responderem a bala: "Deixaram que Lampião entrasse no âmbito da segunda cidade do estado e tiroteasse dentro das ruas iluminadas a luz elétrica e povoadas de residências modernas." Quando passou pela cidade, Cascudo recolheu relatos da luta encarniçada. Algumas testemunhas do combate mostraram ao visitante o local exato onde os cangaceiros foram avistados, cantando um tema popular:

Olê, mulher rendeira,
Olê, mulher rendá
Tu me ensina a fazer renda,
Eu te ensino a namorar.

Ao caracterizar os cangaceiros, o historiador lembra que as armas estão presentes com naturalidade no cotidiano do homem sertanejo por conta "da facilidade de ação pessoal, em vez de justiça". Acredita que tudo começou entre os séculos XVII e XVIII, quando o sertão foi povoado por "gente fisicamente forte e etnicamente superior", e os fazendeiros recorriam ao uso de armamentos, pela "necessidade da defesa imediata contra o índio implacável".

Em outra crônica, Câmara Cascudo discorre sobre as diferenças entre o pensamento do sertanejo e o do morador do agreste e do litoral: "O sertanejo é mais espontâneo que o agresteiro, viciado nas ironias da cidade por um contato maior. A população do interior guarda, em volume maior, as virtudes da palavra oportuna." O historiador vaticina: Uma literatura do sertão deverá refletir fielmente a sintaxe local e, acima de tudo, a mentalidade ambiente que não é inteiramente a nossa. Verdade é que a rodovia assimilou o sertão a tal ponto que o está tornando sem fisionomia. Mas ainda teremos uns anos antes que a terra perca seus atributos típicos.

As observações de Cascudo sobre o sertanejo atribuem a capacidade de manutenção de "sensibilidade própria, indumento típico, vocabulário teimoso" ao isolamento provocado pela distância do litoral. Ele destaca o gosto dos moradores da região pelas anedotas e "pela pilhéria oportuna e justa [com] que o matuto expressa sua inteligência". E também a verve de quem por lá vive, exemplificada na mistura de "imprevisto e comicidade" da resposta que guardou de um sertanejo, após este ouvir o motorista da comitiva dizer que tinha corpo fechado: "Pois seu doutor, nesta terra, de corpo fechado eu só conheço ovo"

Atento às peculiaridades do falar, Cascudo tenta encontrar na influência do tupi uma explicação para o fato de o sertanejo não flexionar o plural: "Sabemos o número apenas pelo determinativo: o boi, os boi; a vaca, as vaca. E no nheengatu não havia o plural." Observa que, "como todo primitivo", o matuto não ama a natureza em estado intocado: "Árvore por si só nada quer dizer. Só deparamos um sertanejo extasiado ante a natureza quando esta significa para ele a roçaria virente, a vazante florida, o milharal pendoando, o algodoal cheio de capulhos. A noção da beleza para ele é a utilidade, o rendimento imediato, pronto e apto a transformar-se em função." E conclui: "Por isso, não há um só canto popular descrevendo paisagens."

*
"O Fole Roncou!: Uma História do Forró"
Autor: Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues
Editora: Zahar
Páginas: 472
Quanto: R$ 49,90

Texto da Livraria Folha, baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

O casal 20

Capa da revista Aventuras na História de abril/maio. 

A edição retrata a história de Lampião e Maria Bonita: "Descubra como o romance dos dois ajudou a reduzir a violência do cangaço". Nas bancas! 


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ruínas da aldeia de Antônio Conselheiro reaparecem com a seca

Ariano Suassuna estará em Conquista em maio



Autor de “O Auto da Compadecida” e de “A Pedra do Reino”, Ariano é um árduo defensor da cultura nordestina e um dos grandes escritores brasileiros. Formado em Direito, se tornou teatrólogo e foi o idealizador do Movimento Armorial, que tem como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular nordestina. O escritor sempre militou ao lado das causas sociais e hoje, aos 85 anos, é secretário de estado de Pernambuco, respondendo pela pasta de Assessoria ao Governador.

O escritor estará em Vitória da Conquista no dia 10 de maio para participar da palestra de abertura do II Festival da Juventude, promovido pela prefeitura municipal da cidade.

terça-feira, 2 de abril de 2013

J. Borges ilustra clássico dos irmãos Grimm

O xilogravurista pernambucano J. Borges foi o responsável por ilustrar os dois volumes dos “Contos maravilhosos infantis e domésticos”, edição especial que a editora Cosac Naify lançou, no ano passado, para celebrar os 200 anos da primeira publicação (de 1812 e 1815) das famosas histórias reunidas pelos irmãos Grimm.


Para a edição dos contos dos Grimm ele criou ao todo 43 ilustrações, espalhadas pelos dois volumes. Algumas delas, como a que ilustra “A maldita fiação do linho”, lembra as fiadeiras do caroá, fibra que já foi muito explorada na região agreste. Foi a aproximação entre esses dois universos narrativos (as fábulas europeias e os cordéis brasileiros) que motivou a Cosac Naify a convidar Borges para fazer as ilustrações.

Os contos dos Irmãos Grimm são caracterizados como maravilhosos, não exatamente de fadas, daí a origem do título do livro. Uma das principais características desses contos são as transformações, as metamorfoses pelas quais passam os personagens. O trabalho de J. Borges tem construção muito interessante de personagens que se metamorfoseiam — observa Isabel Coelho, diretora da área infantojuvenil da Cosac. — Outro ponto comum é o caráter popular tanto dos textos, extraídos da cultura oral alemã, quanto do trabalho de Borges. Alguns contos trazem algo de violento, que nos desenhos de Borges se tornam quase cômicos, dando leveza à leitura.

A coletânea apresenta alguns dos títulos clássicos como 'O rei sapo ou o Henrique de ferro', 'Rapunzel', 'Hans Meu Ouriço', 'Estranha hospitalidade', 'Mil peles', 'A Gata Borralheira' e 'O irmão fuliginoso do Diabo'.

Veja algumas das xilogravuras que estão no livro, abaixo.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Chicó, o maior mentiroso do sertão

O famoso Chicó é um mentiroso de mão cheia, contador de causos como ninguém, ele foi o escolhido para celebrarmos, hoje, o dia da mentira. Agora, quando você contar aquela história de pescador e alguém ficar perguntando, querendo entender, responda: "não sei, só sei que foi assim!" que tá resolvido.

Chicó (Selton Mello) do filme de Guel Arraes, inspirado no livro de Ariano Suassuna

Leia trecho do cordel "Presepadas de Chicó e astúcias de João Grilo", do escritor Marco Haurélio.

Chicó contava vantagem,
Mas o povo não ligava,
Toda noite para ouvi-lo
A multidão se ajuntava,
Porém não tinha sequer
Um que nele acreditava.

João Grilo dizia sempre:
— Chicó, tenha mais cuidado,
Pois a sua língua grande
Pode deixá-lo enrascado
Se um dia se deparar
Com algum cabra malvado.

Chicó dizia: — Qual nada!
Nunca me meto em engano:
Já irriguei o deserto
Com as águas do oceano,
Mandei fazer uma ponte
Ligando Marte a Urano!

Já matei onça de tapa
E leão com pontapés,
Já tirei água de pedra,
Como um dia fez Moisés,
Em casa tenho uma árvore
Que produz contos de réis!

João Grilo disse: — Chicó,
Nem mesmo lá em Pequim
Um pé-de-pau dá dinheiro
Ou a água do mar tem fim.
Chicó respondeu: - Não sei;
Eu só sei que foi assim...

Porém, meu amigo João,
Agora vou lhe contar
Uma história verdadeira,
Dessas de se admirar,
Que mesmo o cabra incrédulo
É forçado a acreditar:

No sertão do Ceará
Vi três matutos correndo
Atrás de uma tartaruga –
Parece que inda estou vendo –
Mas vou descrever os três
Pra você ficar sabendo.

Cada um deles levava
Consigo uma carrapeta.
Mas o primeiro era mudo
O segundo era perneta;
Já o terceiro era cego,
O quarto surdo e maneta.

E foi o cego quem viu
A tartaruga matreira.
O mudo falou pra ele:
— Acabou-se a brincadeira!
Depois gritou o perneta,
Que se danou na carreira.

Mas quem pegou a bichinha
Foi o sujeito cotó,
Vendeu-a para um mendigo,
Ficou mais rico que Jó.
É a mais pura verdade,
Quem lhe garante é Chicó.

Mas isso, João, não é nada,
Já fiz coisa mais incrível
Que, se lhe contar, você
Pensará ser impossível.
Pra você pode até ser,
Mas não pra alguém do meu nível.

Eu tenho um grande criame
De abelhas no meu quintal.
Tentei contar as colmeias –
Confesso que passei mal –
Pois nem em quinhentos anos
Descobriria o total.

Porém contei as abelhas,
Que passavam de um trilhão!
Vendo que faltava uma,
Quase perdi a razão
Mas para minha alegria,
Vi o seu rastro... no chão.

Entrei mata adentro e vi
Minha abelhinha caída,
Com duas raposas velhas
Numa batalha renhida.
Saquei de grande peixeira,
Pra defender minha vida.

Rumei a peixeira nelas,
Que saíram em disparada;
A peixeira se perdeu
Dentro da mata fechada.
Então, matutei um jeito
De sair desta embrulhada.

Logo peguei o meu binga,
Fogo na mata botei,
E desta forma, as raposas
Pra bem longe afugentei.
Quando o fogo se apagou,
Minha peixeira encontrei.

Porém sobrou só o cabo,
O ferro foi derretido.
Corri até o ferreiro,
Contei o acontecido:
E pedi que refizesse
O ferro, que foi perdido.

Mas ele se confundiu
Por ter cabeça de vento
E me fez um anzol reto
Pra eu pescar ao relento.
Joguei o danado n’água,
Puxei e veio... um jumento!

Veio com bruaca e tudo,
Então nele me montei.
Os quartos da abelhinha
Fujona, avante encontrei.
Quando espremi, dez mil litros
De mel bem puro tirei!

Porém não tinha os barris.
E estando no mato só,
Resolvi armazenar
Todo o mel no fiofó
Do meu jeguinho, contudo,
Confesso: fiquei com dó.

Passado algum tempo houve
No sertão grande secura;
Nas costas do meu jumento
Cresceu grande matadura,
De tanto carregar peso
Em sua jornada dura.

O jumento carregava
Bastante mercadoria
E, para minha surpresa,
Presenciei, certo dia,
Germinando em suas costas
Feijão, milho e melancia.       

Então, peguei o machado
E dei um golpe no centro
Da melancia, porém
O machado caiu dentro.
Olhei o buraco e disse:
— É aqui mesmo que eu entro!

Lá dentro da melancia
Avistei em disparada
Um vaqueiro procurando
A sua enorme boiada.
Pedi seu adjutório:
Ele me deu uma escada.

Para subir os degraus
Foi terrível o escarcéu,
Pois saí da melancia
E fui bater lá no céu.
Lá Maria Madalena
Me ocultou em seu véu.

Acabei voltando à Terra
Cavalgando num corisco,
Que caiu em Xique-xique,
Nas bandas do São Francisco,
Mas aprendi a lição –
Hoje sou um cabra arisco.