quarta-feira, 26 de junho de 2013

Vila Junina: Casa do Cordel celebra cultura popular


A cultura popular nordestina é grande estrela do Forró Pé de Serra do Periperi. Para celebrá-la, a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista montou na Praça Tancredo Neves uma vila que relembra diversos aspectos da cultura popular. Casinhas de barro, comidas típicas, música e literatura de cordel ajudam a compor a Vila Junina, posicionada estrategicamente em frente ao Memorial do Forró.

A casa do cordel é uma das atrações da vila. No local ficam expostos livretos de poesia, a maior parte, escritos por autores nordestinos, imagens de xilogravura, artesanato, referências ao cangaço e fotos de grandes representantes da cultura nordestina, a exemplo de Luiz Gonzaga e Patativa do Assaré.

O responsável pela casa, Antônio Andrade, conta aos visitantes curiosidades sobre a arte nordestina. “O cordel floresceu aqui no Nordeste do Brasil. A presença do cordel em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília se deve ao processo migratório de nordestinos, mas é uma produção eminentemente do nordeste. Milhares de pessoas passam por esta casa do cordel, durante os festejos juninos”, conta.

Presente no Forró Pé de Serra do Periperi desde a edição de 2009, a Casa do Cordel, organizada pelo professor Antônio Andrade, atrai pessoas de todas as idades. A exposição conta com centenas de títulos da literatura de cordel, alguns escritos há séculos, entre eles estão os folhetos que inspiraram Ariano Suassuna a escrever o Auto da Compadecida, os que homenageiam ícones nordestinos, como Lampião, Padre Cícero e Luiz Gonzaga, e também personagens históricos, como Che Guevara, Zumbi dos Palmares, Tiradentes e Anita Garibaldi.

(Da Secom PMVC)

Andrade entregou à cantora Marina Elali, neta de Zédantas, a segunda edição do jornal Cancão de Fogo que homenageou o avô da cantora e parceiro de Gonzagão

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Livro: Lampião e Lancelote

Em "Lampião e Lancelote" acontece um encontro inusitado: um cavaleiro medieval desafia um cangaceiro do Nordeste. Para o primeiro é uma justa e para o segundo um duelo. Porém, o embate é sobretudo cultural. Nas linguagens do cordel e da novela de cavalaria, Lampião e Lancelote disputam quem faz o melhor repente, cada um com suas referências.

O cavaleiro Lancelote, o melhor da Távola Redonda do Rei Arthur, desafia Lampião, o cangaceiro mais famoso do Nordeste Brasileiro. O autor Fernando Vilela encontrou, no entanto, pontos análogos e relações entre esses mundos, e Bráulio Tavares, autor da adaptação para o teatro, manteve esses elementos na dramaturgia. Os dois heróis retratados neste livro são acompanhados por personagens míticos e históricos como Morgana e Maria Bonita

Os personagens da adaptação teatral
No teatro, a encenação é caprichada e moderna com uma montagem que, além de valorizar a cultura brasileira, encanta tanto pela beleza estética e literária - inspirada nos desenhos e xilogravuras do livro de Fernando -, quanto pela mágica de fábula que tais personagens inspiram. Nesta adaptação para o teatro, a estrutura literária criada pelo autor é mantida tanto nos diálogos como nas letras das músicas, para que a beleza do estilo e a poética de sua proposta sejam mantidas.


As ilustrações de Vilela brincam com os dois universos presentes no livro. Para desenvolver a ambientação medieval, ele buscou como referência as iluminuras medievais. Já para Lampião, a xilogravura popular e as fotografias de época serviram de guia para desenvolver a indumentária e o universo do cangaço. Vilela obteve o dinamismo das ilustrações e seu forte caráter gráfico com o uso de matrizes móveis e independentes, que funcionam como carimbos.


Outro aspecto marcante das imagens é o uso de tons de cobre e prata. O primeiro evoca as balas, anéis, moedas e roupas de Lampião. Já a cor prata lembra a espada e a lança dos cavaleiros.


Editado pela Cosacnaify, o livro é um dos mais premiados do Brasil. Recebeu dois prêmios Jabuti, quatro prêmios FNLIJ e menção Honrosa na feira de Bolonha. O livro mistura os registros literários, mantendo a rima e o improviso do cordel, além do léxico medieval. Nas falas do cangaceiro, Fernando Vilela usou a métrica mais tradicional do cordel, a sextilha heptassilábica, composta de seis versos com sete sílabas poéticas cada.

Já nas falas do cavaleiro, foi empregada a setilha, sete versos de sete sílabas, consagrada nos duelos (de Lampião) escritos por José Costa Leite. Por fim, para a travessia de Lancelote, Vilela apropriou-se dos termos e estrutura de sentenças das novelas de cavalaria. As narrativas épicas da cultura medieval e as sextilhas dos cordelistas do sertão são matrizes que se juntam pra criar uma história em prosa e verso, em carimbo e em xilogravura, mostrando o instante em que dois universos paralelos se cruzam através das figuras de seus maiores heróis.

O livro está a venda nas principais livrarias virtuais a R$ 57 (veja na Saraiva).

Filme: Central do Brasil

Para comemorar o dia do cinema nacional (19 de junho), assista a "Central do Brasil", um longa de Walter Salles, de 1998, com roteiro de Marcos Bernstein e João Emanuel Carneiro. O filme foi inspirado em Alice nas Cidades, de Wim Wenders.

O mal e o sofrimento por Leandro Gomes de Barros

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Clã Brasil: forró bom que chega!


Analisar o grupo Clã Brasil é fugir da metáfora sem destrancar-nos da poesia. Realidade cristalina, as meninas que formam esse núcleo de sublime construção musical são ao mesmo tempo doces, amorosas e guerreiras. São flores que têm lá seus espinhos guardiões da sua compreensão musical: a defesa inegociável das legítimas tradições estéticas oriundas de mestres como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Antônio Barros, Jacinto Silva, Gordurinha, Elino Julião, entre outros.

Levemos em conta também o fato de que o quarteto fantástico não caiu na pauta musical de pára-quedas. As quatro garotas são estudiosas, freqüentam os bancos acadêmicos e têm plena noção de teoria e prática na arte que escolheram por empunhar como suas espadas de peso justo. Não devemos ouvi-las com mas-mas e nem poréns. Devemo-las sagrar como realidade, conscientes de que é uma realidade que ainda evoluirá bastante, e que, excetuando mudança de ventos, será uma realidade nacional e, quiçá, internacional.

Jovens, sim, jovens. Mas não as tratemos como menininhas prodígios que merecem atenção apenas pela pouca idade. Poucos são os marmanjos que tocam como elas, hoje em dia.

Louvemo-las como grandes artistas desabrochadas e bafejadas pelo plenilúnio criativo. Elas sempre me emocionam. Seja no forró seja no chorinho o Clã Brasil é a fortuna musical que o Nordeste esperava para negar definitivamente as falsas bandas de forró. O diálogo musical aqui está em outro nível, as meninas catam inspiração nas nuvens alvas divinais. Não são mercenárias e nem se deslumbram. A música é Paixão e Sacerdócio para elas. E ninguém mais as represará. Porque, sem a menor dúvida, Deus está tocando com elas. E elas são tocadas por Deus.

Texto de Ricardo Anísio - Crítico musical, poeta e produtor

O mais recente trabalho do grupo é de 2009: Clã Brasil Canta Dominguinhos - confira o show completo no vídeo abaixo.

Conheça o sucesso do Facebook: Bode Gaiato

De Fernanda Guerra - Diario de Pernambuco


A fórmula de sucesso reúne pelo menos três ingredientes: uma imagem tosca, frases entrecortadas e o resgate de diálogos arquivados no imaginário nordestino. A combinação se tornou combustível para a explosão de memes (brincadeiras via web) no Facebook com o poder de reavivar e disseminar traços da cultura oral e dos costumes da região.

As timelines (linhas do tempo) dos usuários da rede social viraram espaço para risadas ao sabor de produções tocadas por uma turma jovem e imbuída do espírito de fazer humor a partir de situações experimentadas por todos, mas, até agora, nunca reunidas e atiradas diariamente diante dos olhos de quem as vive.

Uma das páginas mais conhecidas, a do Bode Gaiato, é um exemplo bem-sucedido. Criada há apenas cinco meses, já superou a marca de 745 mil curtidas - nos últimos 15 dias, ganhou mais de 400 mil seguidores. Os números deslumbram o internauta Breno Melo, de 19 anos, dono do perfil que virou febre e influência para seguidores.

Difícil encontrar um usuário pernambucano da rede social que não conheça ou se reconheça nas ilustrações postadas. Só para refrescar: o bode de Breno se chama Junin e vivencia situações recorrentes da vida de uma criança: uma bronca da mãe ou uma brincadeira de rua são os assuntos mais abordados nas conversas.

Breno nasceu no Recife, cresceu em Taquaritinga do Norte, mora há anos em Caruaru e estuda engenharia elétrica na Universidade Federal de Campina Grande. A visibilidade na web cresceu tanto que o Bode Gaiato ganhou reproduções falsas (fakes, como são chamadas). “Tem uma que já postou imagens com frases pornográficas e palavrão. Isso pode gerar preconceito. Não é a linha do Bode Gaiato”, explica Breno, que já contou 32 imitações.

O humor sem apelo praticado por Breno rendeu-lhe publicidade na página, com fabricação de camisetas, e até um programa em uma rádio do interior. A linha, diz, é defender e espalhar elementos da cultura nordestina, do modo de falar ao cotidiano.

A estratégia tem respaldo. O gaúcho Fernando Fontanella, pesquisador de cultura popular midiática, salienta o perfil agregador do Bode. “A página continua a prática popular de fazer autorreferência. Muitas imagens são sugeridas pelo público. As situações são compartilhadas por várias pessoas de fora do Nordeste. Eu, que não cresci aqui, me vejo em algumas situações”, analisa. No livro Minidicionário de Pernambuquês, o escritor Bertrando Bernardi observa: “A cultura não é uma coisa estática. Com o passar do tempo, vai se modificando. Não tem pacote pronto. É feita do dia a dia”.

Fontanella arremata: “Existe a cultura reconhecida em obras de arte, no folclore, na música… E a cultura do cotidiano. O que é ser nordestino é mais reconhecido nisso do que nas obras de arte”, acredita. “O linguístico não é só o forte. É o mais óbvio. O grande sucesso dele é o levantamento de situações típicas de coisas que causam reconhecimento. É um processo contínuo com o tipo de humor que se faz no cordel”, complementa. A escritora e pesquisadora de cordel Maria Alice Amorim é mais cautelosa. “Acho caricato. A literatura de cordel é associada à utilização de linguagem matuta. É o caso do Bode Gaiato, que se utiliza de regionalismos para fazer rir, mas nada tem do mundo poético dos folhetos de cordel”, ressalta.

Glossário - Da boca do Bode
Pia - Espia, observa
Avia - Anda logo
Óia - Olha
Visse - Viu
Armaria - Ave Maria
Crendôspai - Creio em Deus pai
Mar minino - Mas menino
Vigemaria - Virgem Maria
Mulesta - Moléstia (doença, peste ruim)
Pantim - Frescura
Nãm - Não, recusa

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Por que Santo Antonio é considerado santo casamenteiro?


Reza a lenda que, certa vez, em Nápoles, havia uma moça cuja família não podia pagar seu dote para se casar. Desesperada, a jovem – ajoelhada aos pés da imagem de Santo Antônio – pediu com fé a ajuda do Santo que, milagrosamente, lhe entregou um bilhete e disse para procurar um determinado comerciante. O bilhete dizia que o comerciante desse à moça moedas de prata equivalentes ao peso do papel. Obviamente, o homem não se importou, achando que o peso daquele bilhete era insignificante. Mas, para sua surpresa, foram necessários 400 escudos da prata para que a balança atingisse o equilíbrio. Nesse momento, o comerciante se lembrou que outrora havia prometido 400 escudos de prata ao Santo, e nunca havia cumprido a promessa. Santo Antônio viera fazer a cobrança daquele modo maravilhoso. A jovem moça pôde, assim, casar-se de acordo com o costume da época e, a partir daí, Santo Antônio recebeu – entre outras atribuições – a de “O Santo Casamenteiro”.

Outra história que envolve a fama de Santo Antônio é a de que uma moça muito bonita, que havia perdido as esperanças de arranjar um marido, apegou-se a Santo Antônio. Dizem que a mulher adquiriu uma imagem do santo e colocou-a em um pequeno oratório. Todos os dias, a jovem colhia flores e as oferecia a Santo Antônio sempre pedindo que este lhe trouxesse um marido.

Mas, passaram-se semanas, meses, anos… e nada do noivo aparecer.

Então, tomada pelo desgosto e pela ingratidão do santo, ela atira a imagem pela janela. Neste exato momento, passava um jovem cavalheiro que é atingido pela imagem do Santo. Ele apanha a imagem e vai entregar à jovem, que se apaixona por ele e atribui a sua chegada a fé por Santo Antônio.

A partir daí, as moças solteiras que querem casar começaram a fazer orações pedindo ajuda ao santo e cultuando sua imagem. Entre as simpatias mais populares, acredita-se que as jovens devem comprar uma pequena imagem do Santo e tirar o Menino Jesus do colo, dizendo que só o devolverá quando conseguir encontrar o amor, ou ainda, virar o Santo Antônio de cabeça para baixo.  

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Lampião no mundo das celebridades

Por Ancelmo Gois*

Octavio Iani (1926/2004), considerado um dos fundadores da sociologia no Brasil, tem um belo estudo sobre tipos e mitos do pensamento brasileiro. Para ele, o Brasil pode ser visto ainda como um país, uma sociedade nacional, uma nação ou um Estado-não nação em busca de um conceito. É neste processo de buscar uma cara que florescem as figuras e as figurações, os mitos e as mitificações de "Lampião", "Padre Cícero", "Antonio Conselheiro", "Tiradentes", "Zumbi" e outros, reais e imaginários.

No caso de Tiradentes, nosso herói maior, a propaganda republicana, na ausência de um retrato feito por alguém que realmente o tivesse conhecido pessoalmente, o pintou como Cristo. Aquelas barbas podem ser pura imaginação do retratista, já que naquela época, como em alguns lugares hoje, preso não podia deixar crescer barba ou cabelo por causa dos piolhos.

Com Lampião, o processo de mitificação  é interminável. Afinal, ele é  filho famoso de uma terra de cantadores de feira e de cordelistas, onde a imaginação, e não só talento, também corre solta. Tanto que nas últimas décadas  muitos tentaram promover a transposição da imagem de Lampião de "facínora"  para uma espécie de versão tupiniquim do "Bandido Giuliano", o fora da lei que virou  herói siciliano na primeira metade do  século XX e que foi retrato nas telas no clássico de  Francesco Rosi.

Acho ainda que Lampião, como ocorre com muitos outros personagens da nossa história, está sendo redescoberto pela ótica do culto da invasão da privacidade, uma das marcas dos tempos atuais. Em suas covas, mesmo enterrados  há 50, 100, 200 anos, eles não conseguiram escapar de um mundo que se transformou numa  Big Brother. Viraram "Celebridades", e portanto sujeitos a bisbilhotices, ou fofocas mesmo, sobre seus afetos, romances e até opção sexual. Talvez seja por isso que surgem agora  questionamentos sobre a sexualidade de "Zumbi" e mais recentemente de "Lampião" com o livro LAMPIÃO O MATA SETE.

No livro opositor, LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE, o autor Archimedes Marques procura desmontar, pedra por pedra, o mito do Lampião gay. Vale a pena conferir.

*Colunista do Jornal O GLOBO

Nota: para adquirir o livro LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE basta entrar em contato com o escritor através do e-mail: archimedes-marques@bol.com.br

Cordel "Coco-Verde e Melancia"

Para o dia dos namorados, o romance de José Camelo de Melo Resende: "As grandes Aventuras de Armando e Rosa ou O Coco Verde e a Melancia"


Coco-Verde e Melancia
é uma história que alguém
quer sabê-la mas não sabe
o começo de onde vem
nem sabe os anos que faz
pois passam trinta de cem

Coco-Verde era filho
de Constantino Amaral
morador no Rio Grande
mas fora da capital
pois sua casa distava
meia légua de Natal

Porém seu nome era Armando
como o povo o conhecia
mas a namorada dele
essa tal de Melancia
a ele por Coco-Verde
chamava e ninguém sabia

Então dessa Melancia
Rosa era o nome dela
porém Armando em criança
se apaixonando por ela
para poder namora-la
pôs esse apelido nela

Portanto, seu nome é Rosa
seu pai Tiago Agostinho
de origem portuguesa
do pai de Armando vizinho
seus sítios eram defronte
divididos num caminho

Quando Rosa fez seis anos
e Armando a mesma idade
os pais de ambos trouxeram
um professor da cidade
para instruir as crianças
daquela localidade

Fizeram logo uma casa
sobre um alto, nela então
Rosa e Armando começaram
a receber instrução
junto com outros meninos
uns vizinhos outros não

Nessa escola começou
Armando a namorar Rosa
pois ela além de ser rica
era bastante formosa
inteligente e cortez
muito séria e carinhosa

Rosa tinha por Armando
uma grande simpatia
de forma que quando o mestre
dava nele ela sentia
o mesmo fazia Armando
quando ela padecia

Ao completarem dez anos
tanto Rosa como Armando
em lousas um para a outro
viviam se carteando
mas disfarçando que estavam
nota de carta apostando

Depois Armando temendo
que o mestre os descobria
figindo que amava as frutas
e nas notas que fazia
tomou como namorada
a chamada Melancia

Rosa também pelas frutas
fingiu amor desmedido
e tomou o Coco-verde
já para seu pretendido
porém o "Coco" era Armando
ele estava prevenido

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Faroeste Caboclo: um cordel urbano

(...)
Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general

Foi quando conheceu uma menina
E de todos os seus pecados ele se arrependeu
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu
(...)

A saga de João de Santo Cristo bebe na fonte da literatura de cordel. Faroeste Caboclo tem, como disse Dado Villa-Lobos, uma certa “base de cordel”. Muito mais do que a estrutura narrativa, de linearidade, a canção traz outros elementos desse gênero de poesia popular. Todo o cordel traz em sua composição aspectos políticos, religiosos ou criminosos. Santo Cristo representa uma convergência desses três elementos.

E é esse componente de marginalidade que encontra mais eco em Faroeste Caboclo: assim como nas epopéias do sertão, onde o cangaceiro era visto como um salvador dos desvalidos, o personagem da canção era um anti-herói, mas também um bandido santo (o povo declarava que João de Santo Cristo era santo…).

E o protagonista traz consigo mais do que os elementos básicos do cordel – ele carrega o DNA dos personagens cordelistas: é um sertanejo, que é, antes de tudo, um forte – com disse Euclides da Cunha. É um retirante, que é, sem dúvida, um corajoso. E tem a sua própria epopéia de amor e ódio, de céu e inferno, de vida e morte.

A literatura de cordel é poesia, em toda a sua força e beleza. Faroeste Caboclo é rock and roll, na veia. Mas também é poesia. E das boas! (Por Gustavo Lopes, publicado no site oficial do filme)

Leia "Faroeste caboclo: literatura, cordel e rock and roll", uma tese de mestrado de Carlos Rogério Duarte Barreiros.

"Faroeste Caboclo" é uma canção do grupo brasileiro Legião Urbana, composta pelo líder da banda, Renato Russo, em 1979. Ela só foi lançada oficialmente em 1987, no álbum Que País É Este. A música, de mais de nove minutos, virou filme neste ano de 2013, que atualmente está em cartaz pelos cinemas de todo o Brasil. Abaixo, um registro da banda cantando a música.