terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Viva Luiz: o Brasil conhece um mestre


1961 - Morre Santana, mãe de Luiz Gonzaga, de doença de Chagas. O compositor Rosil Cavalcanti estreia nesse ano com a marchinha Faz Força Zé, em disco 78 rpm.

1962 – O disco Ô Veio Macho desse ano sai com seis composições inéditas do novo parceiro de Luiz Gonzaga, o paraibano José Marcolino. É o maior feito desse gênero em termos de lançamento de obras de outros parceiros. O compositor João do Vale estreia nesse ano obra luiz-gonzaguiana. Morre o compositor Zedantas, aos 42 anos de idade.

1963 – Músicas destaques do disco Pisa no Pilão (A Festa do Milho), Pronde tu vai, Baião? e a música desabafo de Luiz Gonzaga, o clássico A Morte do Vaqueiro, em homenagem a Raimundo Jacó, o vaqueiro primo do Rei do Baião, assassinado.

1964 – No disco Sanfona do Povo, desse ano, começa a se popularizar o caso do roubo da sanfona de Luiz Gonzaga. Ele lança, também nesse ano, o disco da toada A Triste Partida, do poeta cearense Patativa do Assaré.



1965 – Lança o disco Quadrilhas e Marchinhas Juninas, com lado instrumental do repertório junino-joanino luiz-gonzaguiano. No outro lado do disco se destacam polquinhas de José Marcolino. O cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré grava a Asa Branca, a primeira manifestação de reverência de artista jovem da MPB, dos anos 60 do século XX, à obra imortal do Rei do Baião.



1966 – Luiz Gonzaga amargando desprestígio da sua gravadora, ausente da mídia de televisão, com as vendas de disco em baixa, vive a sua pior crise da carreira artística após o reinado do baião. Nesse ano, ele não grava disco nenhum.  Mas publica a sua biografia O Sanfoneiro do Riacho da Brígida – Vida e Andanças de Luiz Gonzaga – o Rei do Baião, de autoria do paraibano Sinval Sá.

1967 - Os líderes do movimento Tropicalismo, os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, expoentes da nova geração da Música Popular Brasileira dessa década, dizem na imprensa da influência de Luiz Gonzaga na formação deles e da MPB em geral. O jornalista Carlos Imperial espalha o boato da gravação Asa Branca, pelos Beatles. Luiz Gonzaga, de novo notícia, é convidado para programas, inclusive de televisão, e ganha dinheiro, numa fase financeira dele bastante crítica. Lança o disco Óia Eu Aqui de Novo, em tom de volta por cima. É o ano de O Xote dos Cabeludos e do disco O Sanfoneiro do Povo de Deus, o de maior conteúdo religioso popular da sua carreira.

Gil, Dominguinhos e o seu Lula, em 1980
1968 – É o ano do disco Canaã de Luiz Gonzaga. O destaque são as músicas de autoria de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga Jr. de conteúdo profético, libertário e de protesto, gravadas nos dias da implantação do Ato Institucional Nº 5, o famoso AI-5, que instaurou a fase mais aguda de censura do regime militar no Brasil, de 1964 a 1984. (Fonte: http://www.museuluizgonzaga.com.br)


Já que entramos nesse assunto...
Luiz Gonzaga e a Ditadura (publicado no jornal Folha Solta de dezembro de 2011)

Março de 1972, ditadura militar no auge, Luiz Gonzaga se apresenta no Teatro Tereza Raquel no Rio de Janeiro. Na plateia, políticos, como o deputado cearense Armando Falcão, intelectuais e, em grande parte, jovens estudantes opositores ao regime. Luiz não tinha sequer ideia do papel desempenhado pelo dois únicos partidos políticos existentes, o MDB e a Arena. Seu interesse pela política era zero, porém seu discurso parecia bastante politizado.

Durante a apresentação, se colocou numa situação constrangedora ao brincar com o amigo, então deputado, Armando Falcão, um "general civil". Contou quando foi convidado para tocar numa república de estudantes cearenses, no Rio: "Me apresentaram o presidente da república. Sabem quem era? Armando Falcão! E o homem quase que foi o presidente da República, mesmo! Bacharel, deputado, líder, ministro... faltou pouco para ser presidente da República! Foi no governo de Juscelino que ele manobrou, manobrou na política... Tem nada não, nós tamo aí, o senhor na sua e eu na minha..."

Em outro momento,  ao apresentar uma de suas músicas, disse: "Êh, sertão! Sertão das fultricas, sertão dos políticos enganadores, enhin deputado?" Aplaudido, com seus causos, Gonzagão arrancou risos da plateia que reconhecia sua ingenuidade política. Para alguns, Luiz Gonzaga foi um entusiasta da ditadura militar, mas, no mesmo show de 1972, o rei do baião declara: "minha cooperação é tocar!"

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Bem-vindos à Casa do Cordel

Falsa grávida inspira poeta

Confira o cordel escrito por Hélio Schiavo a partir do caso da mulher que enganou a imprensa e todo mundo com uma barriga de pano que dizia ser de quadrigêmeos...



O VEXAME DA COMADRE

Comadre Maria Verônica
Com sua falsa gravidez
Provocou cena demônica
Do início ao fim do mês
E dona justa quer saber
Como foi que ela fez...
O povo ficou assustado
Com aquele bucho estufado
Que ninguém até nunca viu...
O ultra-som confirmado
Não se furta ao bom resultado
Do silicone importado
Que sempre entope o Brasil!...

Ela criou apenas na sua imaginação
Daí surgiu a presente confusão
Gerando um estelionato escabroso
Com bom tempo de cadeia
Para não fugir da peia
Evitando violência e covardia
Pelo monte de "Maria"
Nesse crime vergonhoso
Dessa mentira que a comadre incendeia!...

Uma psicóloga estudada
Jogando com essa farofa misturada
Pensou que enganava a gente
Mas é macho quem entende de gravidez
Confirmo em bom português
Com acusação inclemente!...

Se meu compadre é frouxo
Com aquele jeitão de moxo
Por imposição do destino
Não soube fazer menino
Digo com plena ironia
Daí o "magote" de "Maria"
Com apoio do cretino
Querendo aumentar o coxo!...

Que coisa tão estranha e diferente
Mexendo com a bobeira de tanta gente
Pensando que aquilo era verdade
Mas eu que já fiz menino em penca
Quando engravidava a dona encrenca
Vi de cara -a cara da falsidade
Por isso afirmo sem medo
Que ela inventou esse brinquedo
Para extorquir a cidade!...

E agora doutor
Como é que fica
Na guela de quem vai descer a canjica
Parturiente não pode ficar na grade
Meta pois no xadrez o meu compadre
Que logo toda trama se explica!...

É lá que ele deve por obrigação ficar
Até que a galera o faça engravidar
Pela força e extensão da pica!...

Ai está minha homenagem
Pelo inusitado da bela sacanagem
De um fato que não pode repetir
Para que a figura da mãe por amostragem
Não acabe com a honra de parir!...

Se fosse gente simples lá da roça
Carregando bem cheia uma carroça
Com meninada saindo pelo ladrão
A gente não se importava desse jeito
Porque o negócio é tomar grana do prefeito
Que come ás vezes metade da pensão!...

Comadre Verônica com a benção no afiadinho
Não queira mais tanta Maria no ninho
Com a volta dessa bendita inflação
Mesmo com o aumento do salário
Ainda aparece ministro salafrário
Prá quem não existe ordem de prisão
Nem pressão de delegado!...

Maria Verônica
Se o juiz tiver juízo
Mande arquivar o prejuízo
Que a ninguém você deu
Foi uma comédia e tanto
Correndo por ai em todo canto
Divertindo e enxugando pranto
Da forma que assucedeu
Receba pois meu apoio
Na separação do joio
Do velho compadre seu!....

domingo, 22 de janeiro de 2012

Glauber Rocha e a literatura de cordel

"O cinema feito por Glauber Rocha pode ser caracterizado de várias maneiras, menos como algo simplório. Assim também acontece com a cultura popular" - Rodrigo Elias.

O cineasta conquistense Glauber Rocha, uma das principais cabeças do Cinema Novo, se apropriou da literatura de cordel para a construção de duas importantes obras da sua filmografia: "Deus e o diabo na terra do sol" (1964) e "O dragão da maldade contra o santo guerreio"(1969). Essa relação entre Glauber e a literatura de cordel foi analisada por Sylvia Nemer, autora do livro "Glauber Rocha e a literatura de cordel: uma relação intertextual" (Edições Casa de Rui Barbosa, 270 pp., R$ 23) - publicado a partir da tese de doutorado que apresentou em 2005 na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Na obra, Nemer destrincha a “estética da fome” de Glauber, mostrando que o cineasta não “representava” simplesmente a violência da condição social (e natural) à qual esteve (e está) submetida parte considerável dos brasileiros do Nordeste. Ao contrário, ele conseguiu desenvolver, através do seu discurso cinematográfico, uma linguagem da violência, presente na apropriação que ele faz da cultura popular do cordel e na representação dos personagens, das situações e falas na tela grande.

A autora analisa as imagens destes dois filmes, fazendo uma relação com a tradição oral. Para ela, a cultura popular é exemplificada pela poética do cordel, que inclui além dos folhetos de feira do Nordeste, a prática do desafio repentista. A abordagem, com marcante ancoragem teórica, torna o livro de interesse preferencialmente para especialistas. Sylvia Nemer apóia-se em Paul Ricoeur, Paul Zumthor, André Gardies, entre outros, e faz uma releitura dos filmes de Glauber e da tradição oral, renovando a abordagem da apropriação da cultura popular pelas elites e transformando o olhar sobre os dois filmes clássicos do cineasta.
 

A pesquisa realizada por Sylvia revela que para "Deus e o diabo" Glauber escreveu um poema que serviu de base para o conjunto de canções que compõem o filme. Esse poema, à maneira da tradição popular do cordel, conta a mesma história narrada pelo filme. O cordel serve como referência homogênea, articuladora da narrativa e o filme reproduz a estrutura básica do folheto. Já em "O dragão da maldade" a poesia sertaneja, na modalidade do desafio repentista, encontra-se associada a outras formas de manifestação popular (como os cantos, as danças, os rituais populares do enredo) e de expressão artística.


Os dois filmes lidam com o cordel de formas completamente diferentes. Ao contrário de "Deus e o diabo", onda há uma direção, um caminho a seguir, em "O dragão da maldade" o fim não nos leva a lugar algum. Em um caso, lembrando a lógica do folheto, a vitória do bem contra o mal representa a moral da história cuja repetição tem como princípio evitar que, um dia, os males do passado se repitam.

Capa do livro
No outro, como nos desafios repentistas, a vitória significa apenas o fim da peleja que deverá ser recomeçada, outro dia, em outro lugar, com um tema inteiramente novo e lidando diretamente com a participação do público que intervém como elemento de surpresa no processo de criação.

Este trabalho rendeu à Sylvia Nemer o Prêmio Casa de Rui Barbosa. A tese encontra-se disponível para download aqui.

Mais sobre o cineasta Glauber Rocha e seus filmes, no site do Tempo Glauber.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Táticas da guerra no sertão


Para não deixar pistas e dificultar as perseguições policiais, os cangaceiros utilizavam diversas técnicas ao fugir dos macacos (como chamavam as volantes policiais), como:

- andar com alpercatas "peludas" ou forradas com estopa, para não deixar rastros;
- inverter a posição do salto das alpercatas, colocando-o na parte do bico, para esconder a direção tomada pelo bando;
- pisar nos mesmos locais dos que lhe precediam no caminho, fazendo parecer o andar de um só homem;
- apagar rastros com galhos folhudos, amarrados aos rabos dos animais de coice;
- varrer o chão com vassoura de galhos folhudos, travalho feito por cangaceiro caminhando atrás do bando;
- andar de costas na saída das "bebidas", em terra molhada;
- marginar caminhos, andando no chão duro ou sobre pedras, para evitar rastros;
- utilizar a técnica do "pulo", com os cangaceiros pulando fora da fila, restando apenas um no caminho, que ia apagando os rastros;
- embaralhar os rastros, para deixar várias e diferentes pistas da caminhada;
- percorrer trchos de riacho, dentro da água corrente;
- nos pousos enterravam os restos de comida, para não atrair urubus;
- à noite, não era feito "fogo", para não alertar as volantes;
- guardavam silêncio nas longas caminhadas (andavam até 50 km por dia); não tossiam, procuravam evitar choros de crianças recém nascidas;
- usar sandálias do mesmo formato tanto na frente como atrás, isso deixava rastro sem orientação;
- às vezes, deixavam rastros claros de sua orientação para fazer com que volantes caíssem em emboscadas;
- dividir os cangaceiros em pequenos grupos para que seguissem direções diferentes desnorteando os policiais;
- deixar manchas de sangue em pedras e folhagens e depois seguir rumo contrário aos vestígios deixados.

Lampião sobreviveu por quase vinte anos lutando e fugindo pelo sertão nordestino, mas uma falha sua e do seu bando, por vezes, fazia com que as volantes os encontrassem: o cheiro forte de perfume que exalavam por onde passavam. Os cangaceiros tinham o hábito de passar perfumes para esconder o mau cheiro de dias caminhando e sem tomar banho.

Informações extraídas de texto publicado no Jornal da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (Táticas Cangaceiras, de Ivanildo Alves da Silveira). 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Revista Muito: Mulher de Lampião

A Muito, revista do grupo do jornal A Tarde (Salvador-BA), destacou, em março de 2010, Maria Bonita em sua capa. Confira a reportagem e o ensaio de moda inspirado no cangaço abaixo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Maria, bonita cangaceira



Obra organizada por Vera Ferreira e Germana Gonçalves de Araújo dedicada à vida e modos de Maria Gomes de Oliveira, popularmente conhecida como Maria Bonita, mas que para os cangaceiros do bando de Lampião, era a Maria do Capitão.

Em Bonita Maria do Capitão, o leitor irá encontrar na primeira parte -‘Vida e Modos de Maria’- um pouco da biografia da personagem feminina mais famosa do cangaço, enquanto que na segunda, - ‘Maria Bonita e Outras Artes’- é possível perceber como as várias manifestações artísticas, representam a Maria do Capitão Lampião.

“Há três anos, quando tivemos a ideia de fazer um livro, iríamos, incialmente, focar a relação das diversas artes para com a figura de Lampião. Mas decidimos mudar o foco para Maria Bonita, porque existem poucas publicações dedicadas, exclusivamente, a ela.Queríamos fazer um livro diferente, trazendo novidades para o leitor, então decidimos dedicar uma parte à biografia da Maria Bonita e outra, ao modo como as artes enxergam essa personagem. Somente não dedicamos um caderno exclusivamente às artes visuais, porque os ilustradores e pintores ficaram incumbidos em ilustrar os outros cadernos como música, literatura, xilogravura, cinema, moda, teatro e artesanato”, explica Germana.

A compilação do material, no entanto, consumiu cerca de um ano e, durante seis meses, a desenhista industrial e mestra em Desenho, Cultura e Interatividade, Germana Gonçalves de Araújo, dedicou-se exclusivamente à confecção do livro, trabalhando na concepção gráfica e diagramação. Quem esteve juntamente com ela nessa empreitada foi uma das netas de Lampião e Maria Bonita, a jornalista, escritora e pesquisadora cangaceirista, Vera Ferreira.

Um dos aspectos mais significativos dessa obra, sem dúvida, é a oportunidade de colocar em primeiro plano a figura de Maria Bonita e desmistificar o papel da mulher no movimento do Cangaço. Ela deixa de ser um personagem de bastidor ou a acompanhante de Lampião, para ser a personagem principal sobre a história. Durante a pesquisa, Germana foi descobrindo “imagens” diferentes da Maria do Capitão da pré-concebida no imaginário do povo.

“A gente tem duas imagens muito fortes da Maria Bonita. Uma construída pela literatura, principalmente de Cordel, que é de uma mulher masculinizada, uma mulher forte, que usa arma e mandava em Lampião. E a outra imagem, que a própria Rede Globo ajudou a construir, que é a de uma mulher que ao mesmo tempo é forte, sensual e vaidosa. No fundo, todos os depoimentos que tivemos sobre Maria Bonita, pessoas que conviveram com ela, como ex-cangaceiros e ex-volantes disseram que ela era uma pessoa extremamente simples, que nunca posou de rainha, e ao mesmo tempo era uma mulher engraçada, que contava piada, jogava bola com cangaceiro, uma verdadeira  moleca”, diz Germana. (Informações do Jornal da Cidade)

Abrahão, Maria e Lampião clicados em 1936, por anônimo

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A engenhosidade poética de João Cabral de Melo Neto


Catar Feijão 
Catar feijão se limita com escrever: 
Jogam-se os grãos na água do alguidar 
E as palavras na da folha de papel; 
e depois, joga-se fora o que boiar. 
Certo, toda palavra boiará no papel, 
água congelada, por chumbo seu verbo; 
pois catar esse feijão, soprar nele, 
e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 


Ora, nesse catar feijão entra um, risco 
o de que entre os grão pesados entre 
um grão imastigável, de quebrar dente. 
Certo não, quando ao catar palavras: 
a pedra dá à frase seu grão mais vivo: 
obstrui a leitura fluviante, flutual, 
açula a atenção, isca-a com risco. 

João Cabral de Melo Neto, autor do poema acima, completaria hoje 92 anos. Ele é o mais importante poeta da geração de 45, nasceu em Recife e passou a infância em engenhos de açúcar em São Lourenço da Mata e Moreno. Desde cedo demonstrava interesse pela palavra, pela literatura de cordel nordestina e desejava ser crítico literário.

Em 1946 ingressou na carreira diplomática e, a partir de então, serviu em várias cidades do mundo: Barcelona, Londres, Sevilha, Madri, Porto, Rio de Janeiro, aposentando-se em 1990.

Irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre, João Cabral foi amigo do pintor Joan Miró e do poeta Joan Brossa. Membro da Academia Pernambucana de Letras e da Academia Brasileira de Letras, foi agraciado com vários prêmios literários.

Quando morreu, em 1999, especulava-se que era um forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura.

Foi casado com Stella Maria Barbosa de Oliveira, com quem teve os filhos Rodrigo, Inez, Luiz, Isabel e João. Casou-se em segundas núpcias, em 1986, com a poeta Marly de Oliveira.


Sua obra apresenta duas linhas-mestras: a metapoética e a participante. A linha metapoética abrange os poemas de investigação do próprio fazer poético. E a participante é aquela que tem como tema o Nordeste, com todos os problemas voltados para a questão social, tais como a miséria, a indigência, a fome, entre outros.

Uma das celebridades que retrata bem esta temática foi a obra Morte e Vida Severina, a qual revela a história de um retirante de 20 anos que sai em buscas de melhores condições de vida.

Dando prioridade à análise da poesia mencionada, percebemos que o artista parece não dialogar com um leitor comum, mas com os outros poetas. Podemos chamar isto de “Métrica do Intelecto”, no qual o “fazer poético” tem o seu sublime destaque.

Podemos perceber que ele utiliza um simples ato do cotidiano, que é o de catar feijão, e compara-o com a prática da escrita, ou seja, assim como os grãos devem ser minuciosamente escolhidos, as palavras devem ser muito bem articuladas para que haja clareza, no que se refere ao exercício da linguagem.

A afirmativa torna-se verídica ao analisarmos os seguintes versos:
“Joga-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na folha de papel
E depois, joga-se fora o que boiar.”

Por Vânia Duarte (Brasil Escola)


Obras do poeta:

Pedra do Sono (1942)
Os Três Mal-Amados (1943)
O Engenheiro (1945)
Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947)
O Cão sem Plumas (1950)
O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife (1954)
Dois Parlamentos (1960)
Quaderna (1960)
A Educação pela Pedra (1966)
Morte e Vida Severina (1966)
Museu de Tudo (1975)
A Escola das Facas (1980)
Auto do Frade (1984)
Agrestes (1985)
Crime na Calle Relator (1987)
Primeiros Poemas (1990)
Sevilha Andando (1990)
Tecendo a Manha (1999)


O meu nome é Severino,   
como não tenho outro de pia.  
Como há muitos Severinos,  
que é santo de romaria,   
deram então de me chamar  
Severino de Maria  
como há muitos Severinos  
com mães chamadas Maria,  
fiquei sendo o da Maria  
do finado Zacarias.
Trecho inicial de Morte e Vida Severina - leia a obra completa aqui.  



domingo, 8 de janeiro de 2012

Viva Luiz: os primeiros dez anos de carreira



1941
5 de março. Data da primeira participação de Luiz Gonzaga numa gravação da Victor, atuando como sanfoneiro da dupla Genésio Arruda e Januário França, na “cena cômica” A viagem de Genésio. Seu talento chama a atenção de Ernesto Augusto Matos, chefe do setor de vendas da Victor. E no dia 14 de março Luiz Gonzaga grava, assinando pela primeira vez como artista principal, e exclusivo da Victor, quatro músicas que são lançadas em dois 78 rotações.

É publicada a primeira reportagem sobre Luiz Gonzaga na revista carioca Vitrine, com o título Luiz Gonzaga, o virtuoso do acordeom.  Ainda em 41, Gonzaga grava mais dois 78 rotações.

O sucesso havia chegado, e Gonzaga já era chamado como “o maior sanfoneiro do nordeste, e até do Brasil”.

Nos anos seguintes grava cerca de 30 discos 78 rpm, muitos choros, valsas e mazurcas, todos em solo pois a Victor insiste em não lhe permitir cantar em seus discos, que até então eram só instrumentais. Inicia na Rádio Clube do Brasil para onde foi levado por Renato Mource, substituindo Antenógenes Silva no programa Alma do Sertão. A firma era na época a Victor.

Também neste ano conheceu César de Alencar na Rádio Clube do Brasil, quando o mesmo era o locutor do programa Alma do sertão sob o comando de Renato Mource. Foi quando apareceu Dino, violonista de sete cordas que tinha a mania de apelidar todo mundo. Ao ver a cara redonda de Luiz Gonzaga, Dino imediatamente o chamou de Lua.

Nasce em Garanhuns José Domingos de Morais que viria a ser o sanfoneiro Dominguinhos, de quem Luiz Gonzaga se tornou um segundo pai e que o tratava como "pai impostor". Luiz Gonzaga começa a fazer sucesso e as emissoras de rádio a se interessar, de fato, pelo novo cartaz.

1943
Trazido pelas mãos do radialista Almirante - que também foi responsável pela descoberta de Gonzaga - o sanfoneiro catarinense Pedro Raimundo estréia na Rádio Nacional com suas roupas de gaúcho. Inspirado nele, Gonzagão passa a se apresentar vestido de nordestino. Nessa época, irritado com a interpretação dada por Manezinho Araújo para a sua "Dezessete e Setecentos", parceria com Miguel Lima, o sanfoneiro passa a cantá-la. Chovem cartas pedindo que ele continue cantando.

1944
É despedido da Rádio Tamoio e, imediatamente, contratado por Cr$ 1.600,00 pela Rádio Nacional, onde o então radialista Paulo Gracindo divulga seu apelido "Lua", por causa do seu rosto redondo e rosado.

1945
Consegue  então o que desejava. Grava seu primeiro disco tocando e cantando, a mazurca Dança Mariquinha, parceria com Miguel Lima, primeira gravação  com o dito e chama a atenção pelo timbre de voz e desenvoltura no cantar. Nesse mesmo ano, e ainda em parceria com Lima grava outros dois discos interpretando Penerô Xerém e Cortando Pano.

Querendo dar um rumo mais nordestino para suas composições, Gonzagão procura o maestro e compositor Lauro Maia, para que este coloque letras em suas melodias. Maia porém apresenta-lhe o cunhado, o advogado cearense Humberto Cavalcanti Teixeira, com quem Luiz Gonzaga viria a compor vários clássicos.
No dia 22 de setembro, nasce de uma relação com a cantora Odaléia Guedes dos Santos o seu filho Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior.

1946
No mês de outubro o conjunto Quatro Ases e um Coringa, da Odeon, acompanhado pela sanfona de Luiz Gonzaga, grava a segunda parceria de Gonzaga e Humberto Teixeira, a música Baião, sucesso em todo país.
Com Humberto Teixeira
Depois de receber a visita de Santana, Gonzaga volta à sua terra, Exu, após 16 anos ausente. No retorno para o Rio, passa pela primeira vez no Recife, participando de vários programas de rádio e muitas festas. Nesse momento conhece Sivuca, Nelson Ferreira, Capiba e Zé Dantas, estudante de medicina, músico por vocação, apaixonado pela cultura nordestina.

1947
Luiz Gonzaga grava em março o 78 rpm que se tornaria um clássico da música brasileira: a toada Asa Branca, sua terceira parceria com Humberto Teixeira, inspirado no repertório de tradição oral nordestina.

A partir desse ano, Luiz Gonzaga adota o chapéu de couro semelhante ao usado por Lampião, a quem tinha verdadeira admiração, à sua apresentação artística, - embora a Rádio Nacional ainda não o permitisse apresentar-se ‘como cangaceiro’ nos seus programas - assumindo, ao mesmo tempo em que também plasmava, a identidade nordestina no cenário nacional.

Num domingo de julho, Gonzaga conhece na Rádio Nacional, a contadora Helena das Neves Cavalcanti, e a contrata para ser sua secretária. Rapidamente o namoro acontece, e Gonzaga pensa em casar.

Neste ano aconteceu o primeiro encontro de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, no Recife.
Com Zé Dantas
1948
No dia 16 de junho Luiz Gonzaga e Helena casam-se no Rio de Janeiro, e passam a morar, juntamente com a mãe de Helena, dona Marieta, no bairro de Cachambi.

1949
Aproveitando uma folga entre as gravações, Luiz Gonzaga leva a esposa e sogra para conhecerem o Araripe, e sua terra Exu. Porém, interrompem a viagem quando estavam no Crato, por causa das desavenças e mortes entre os Sampaio e os Alencar. A grande violência que marcava a disputa entre os clãs rivais ameaçava sua família, ligada aos Alencar. Preocupado, Gonzaga aluga uma casa no Crato, para onde leva seus pais e irmãos, enquanto preparava a mudança de sua família para o Rio de Janeiro, o que ocorreu ainda em 49.
Zé Dantas e Humberto Teixeira
1950
Em janeiro, o médico formando Zé Dantas chega ao Rio, a fim de prestar residência no Hospital dos Servidores, para alegria de Gonzaga, que vai esperá-lo na plataforma da estação de trem. Nesse ano, Luiz Gonzaga lançou, gravando ou cedendo para outros intérpretes, mais de vinte músicas inéditas, a maioria parcerias com Humberto Teixeira e Zé Dantas que se tornariam clássicos da MPB. Em junho lança a música A dança da moda, parceria com Zé Dantas que retratava a febre nacional pelo baião.

Luiz Gonzaga, Catamilho e Zequinha - no começo da década de 1950
Fonte: http://www.museuluizgonzaga.com.br

sábado, 7 de janeiro de 2012

Um cordel em "homenagem" ao BBB

Texto que corre o mundo via emails enviados e reenviados...

Cordel que deixou Rede Globo e Pedro Bial indignados


Antonio Barreto nasceu nas caatingas do sertão baiano, Santa Bárbara/Bahia-Brasil.

Professor, poeta e cordelista. Amante da cultura popular, dos livros, da natureza, da poesia e das pessoas que vieram ao Planeta Azul para evoluir espiritualmente.

Graduado em Letras Vernáculas e pós graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.

Seu terceiro livro de poemas, Flores de Umburana, foi publicado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia.

Vários trabalhos em jornais, revistas e antologias, tendo publicado aproximadamente 100 folhetos de cordel abordando temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor e pesquisa, além de vários títulos ainda inéditos.

Antonio Barreto também compõe músicas na temática regional: toadas, xotes e baiões.

BIG BROTHER BRASIL: UM PROGRAMA IMBECIL.
Autor: Antonio Barreto.

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

(Continue a leitura...)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Jamaica (à) brasileira

Disco "Bambas Dois - Brasil/Jamaica" - Vários artistas
UNIVERSAL MUSIC (2011, 14 FAIXAS) 


Registros tradicionais e álbum de fusão jamaicana-brasileira expõem a riqueza da música nordestina

Em dois lançamentos musicais recentes, o Nordeste aparece como um celeiro musical brasileiro em sua diversidade rítmica e na força de suas expressões populares. De um lado, os sons de um Nordeste profundo na forma que são empunhados popularmente ao longo de sua extensão musical e territorial. De outro, uma ousadia cosmopolita que flerta com a música jamaicana, levando a sonoridade do sertão ao seio de Trenchtown, em um desafio poético-musical que retira os músicos dos dois países de seus lugares-comuns, de seu porto seguro e aponta para a um novo som.

No projeto "Bambas Dois - Brasil - Jamaica", o produtor Eduardo Bidlovski, o BiD, na tentativa de aproximar os sons jamaicanos - reggae, dancehall e ragga - da música nordestina, faz uma viagem instigante nas tradições musicais destes lugares e convoca artistas brasileiros e jamaicanos para, em 14 faixas, apresentar um denominador comum - e original.

Longe de uma proposta estética bem definida, ou de uma fórmula pré-concebida entre as duas musicalidades, o que se ouve é uma experimentação constante, faixa a faixa, absorvendo com criatividade a diversidade rítmica e melódica e o impulso criativo dos músicos. O quebra-cabeça foi montado com base em uma gravação instrumental feita no Brasil, que conta com BiD, Fernando Nunes, Gustah, Lúcio Maia (da Nação Zumbi), James Mü, Siba e participações de Bi Ribeiro, Papete, Céu, Thalma de Freitas e tantos outros.

O material foi levado à Jamaica e apresentado à nomes como Ky-Mani Marley, Queen Ifrica, The Heptones e Oku Onuora. A partir da música hibridizada pelos brasileiros, eles "intuiram" letras, na maior parte compostas dentro do estúdio, dando alma jamaicana às canções. Nos vocais, surgem duetos como Tony Rebel e Siba, Karina Buhr e Oku Onuora, Chico César e Jah Marcus, além do cantor Ky-Mani Marley, filho de mito Bob Marley, ao lado do mestre Dominguinhos.


Filho de Bob Marley, Ky-mani Marley, acompanha o mestre Dominguinhos na faixa Brasil 
Experiências - "Music For All" é a trilha de abertura do disco, anuncia com propriedade o que está por vir. A música traz inúmeras referências musicais, sobrepondo triângulo e zabumba do arrasta-pé com o balanço do ska. O grupo jamaicano The Heptones canta amparado por BiD (guitarra e voz), o percussionista Zé Pitoco, Adriano "Magoo" (sanfona e órgão) e ainda um trio de metais que faz jus ao ska, formado por Marlon Sette (trombone de vara), Tiquinho (trombone de pisto) e Leandro Joaquim (trompete).

A aproximação já consagrada entre o reggae e o xote ganha um balanço bem atual mesclando percussões acústicas - berimbau, pandeirão e zabumba - com batidas eletrônicas e sintetizadores. O dueto de Chico César e Jah Marcus, com letra em inglês e português, é impagável.

A zabumba e o triângulo parecem sempre ter feito parte do arsenal do reggae, tamanha a sintonia em que eles são empunhados em músicas como "Brasil (Little Sunday)", que coloca lado a lado Ky-Mani Marley e Dominguinhos. "I´m in love with Brazil" canta Ky-Mani em letra feita no estúdio, pouco antes da gravação. Para aguçar a confusão rítmica, a canção termina um com trecho em que Dominguinhos comenta a beleza do "xote". "É bom tocar esse xote, tem um balanço danado". E quem pode dizer que não era?

Outra experiência que coroa a proposta do disco é o som da rabeca do pernambucano Siba no ska "Lehá Dodi", que traz nos vocais o poeta jamaicano Oku Onuora e da pernambucana Karina Buhr.

Menos torta que o restante do disco, "Something", clássico dos Beatles, vem trajada de reggae, com arranjos bem resolvidos que incluem percuteria, tamborim e coquim, reforçados por instrumentos melódicos, como trombone de vara de pisto, orgão, clavinete e flautas.

O Maracatu entra com força em "World Cry", uma das faixas em que a estética manguebeat se faz mais forte. Karina Buhr entoa um canto roots do baque virado recifense envenenado por sintetizadores, programação, Lúcio Maia nas guitarras, James Mü na alfaia e Xequere, Gilmar Bolla 8, alfaia e cowbell e Marcos Mathias na alfaia e serrote, e novamente a rabeca de Siba.

Queen Ifrica assina as faixas "Forever You Are" e "Happines is all in your hands", um hip hop no balanço do reggae com muitos metais, triângulo, pandeiro e percuteria. O Maranhão, a Jamaica brasileira, entra no disco pelas mãos do percussionista Papete, que participa de várias faixas como "Only Jah Love" e "Nyahbinghi (Medley)".