quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Jamaica (à) brasileira

Disco "Bambas Dois - Brasil/Jamaica" - Vários artistas
UNIVERSAL MUSIC (2011, 14 FAIXAS) 


Registros tradicionais e álbum de fusão jamaicana-brasileira expõem a riqueza da música nordestina

Em dois lançamentos musicais recentes, o Nordeste aparece como um celeiro musical brasileiro em sua diversidade rítmica e na força de suas expressões populares. De um lado, os sons de um Nordeste profundo na forma que são empunhados popularmente ao longo de sua extensão musical e territorial. De outro, uma ousadia cosmopolita que flerta com a música jamaicana, levando a sonoridade do sertão ao seio de Trenchtown, em um desafio poético-musical que retira os músicos dos dois países de seus lugares-comuns, de seu porto seguro e aponta para a um novo som.

No projeto "Bambas Dois - Brasil - Jamaica", o produtor Eduardo Bidlovski, o BiD, na tentativa de aproximar os sons jamaicanos - reggae, dancehall e ragga - da música nordestina, faz uma viagem instigante nas tradições musicais destes lugares e convoca artistas brasileiros e jamaicanos para, em 14 faixas, apresentar um denominador comum - e original.

Longe de uma proposta estética bem definida, ou de uma fórmula pré-concebida entre as duas musicalidades, o que se ouve é uma experimentação constante, faixa a faixa, absorvendo com criatividade a diversidade rítmica e melódica e o impulso criativo dos músicos. O quebra-cabeça foi montado com base em uma gravação instrumental feita no Brasil, que conta com BiD, Fernando Nunes, Gustah, Lúcio Maia (da Nação Zumbi), James Mü, Siba e participações de Bi Ribeiro, Papete, Céu, Thalma de Freitas e tantos outros.

O material foi levado à Jamaica e apresentado à nomes como Ky-Mani Marley, Queen Ifrica, The Heptones e Oku Onuora. A partir da música hibridizada pelos brasileiros, eles "intuiram" letras, na maior parte compostas dentro do estúdio, dando alma jamaicana às canções. Nos vocais, surgem duetos como Tony Rebel e Siba, Karina Buhr e Oku Onuora, Chico César e Jah Marcus, além do cantor Ky-Mani Marley, filho de mito Bob Marley, ao lado do mestre Dominguinhos.


Filho de Bob Marley, Ky-mani Marley, acompanha o mestre Dominguinhos na faixa Brasil 
Experiências - "Music For All" é a trilha de abertura do disco, anuncia com propriedade o que está por vir. A música traz inúmeras referências musicais, sobrepondo triângulo e zabumba do arrasta-pé com o balanço do ska. O grupo jamaicano The Heptones canta amparado por BiD (guitarra e voz), o percussionista Zé Pitoco, Adriano "Magoo" (sanfona e órgão) e ainda um trio de metais que faz jus ao ska, formado por Marlon Sette (trombone de vara), Tiquinho (trombone de pisto) e Leandro Joaquim (trompete).

A aproximação já consagrada entre o reggae e o xote ganha um balanço bem atual mesclando percussões acústicas - berimbau, pandeirão e zabumba - com batidas eletrônicas e sintetizadores. O dueto de Chico César e Jah Marcus, com letra em inglês e português, é impagável.

A zabumba e o triângulo parecem sempre ter feito parte do arsenal do reggae, tamanha a sintonia em que eles são empunhados em músicas como "Brasil (Little Sunday)", que coloca lado a lado Ky-Mani Marley e Dominguinhos. "I´m in love with Brazil" canta Ky-Mani em letra feita no estúdio, pouco antes da gravação. Para aguçar a confusão rítmica, a canção termina um com trecho em que Dominguinhos comenta a beleza do "xote". "É bom tocar esse xote, tem um balanço danado". E quem pode dizer que não era?

Outra experiência que coroa a proposta do disco é o som da rabeca do pernambucano Siba no ska "Lehá Dodi", que traz nos vocais o poeta jamaicano Oku Onuora e da pernambucana Karina Buhr.

Menos torta que o restante do disco, "Something", clássico dos Beatles, vem trajada de reggae, com arranjos bem resolvidos que incluem percuteria, tamborim e coquim, reforçados por instrumentos melódicos, como trombone de vara de pisto, orgão, clavinete e flautas.

O Maracatu entra com força em "World Cry", uma das faixas em que a estética manguebeat se faz mais forte. Karina Buhr entoa um canto roots do baque virado recifense envenenado por sintetizadores, programação, Lúcio Maia nas guitarras, James Mü na alfaia e Xequere, Gilmar Bolla 8, alfaia e cowbell e Marcos Mathias na alfaia e serrote, e novamente a rabeca de Siba.

Queen Ifrica assina as faixas "Forever You Are" e "Happines is all in your hands", um hip hop no balanço do reggae com muitos metais, triângulo, pandeiro e percuteria. O Maranhão, a Jamaica brasileira, entra no disco pelas mãos do percussionista Papete, que participa de várias faixas como "Only Jah Love" e "Nyahbinghi (Medley)".

Para beber direto na fonte da memória
Outro projeto de fôlego e qualidade que tem a música do Nordeste por Norte é o registro de sons tradicionais da região. O material foi gravado, em julho de 1976 e julho de 1977, por pesquisadores que adentraram o interior em um Ford Rural munidos com gravador profissional Nagra IV-S, gravador Sony portátil cassete estéreo, uma máquina fotográfica Pentax e uma filmadora Super-8.

O trabalho etnográfico vêm ao público em 10 discos lançados pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), na box "Itinerário Musical do Nordeste". Os registros incluem manifestações gravadas em Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Piauí, registrando uma diversidade rítmica que inclui cantiga, ciranda, tambor de crioula, repente, bumba meu boi, banda cabaçal, banda de pífano, aboio, incelência, maneiro-pau, coco de embolada, reisado, guerreiro e toques de cultos afro-brasileiros.

A trupe de pesquisadores da Fundaj, formada por Cristina da Mata Machado, Rita Segato, José Jorge de Carvalho e Emerson Muniz de Araújo, seguiram registrando e identificando as manifestações e seus portadores. O objetivo era localizar geograficamente, pesquisar e fazer registros sonoros, fotográficos e fílmicos das manifestações nordestinas, com ênfase na música.

A pesquisa foi batizada inicialmente de "Etnomusicologia da Área Nordestina" e era parte dos Planos Multinacionais do Instituto Interamericano de Etnomusicologia e Folclore, que serviram de base para estudos comparativos sobre música tradicional, associado a material coletado em outros países da América Latina.

A seriedade no registro permitiu um encarte que se encarrega de nomear as faixas e listar, a medida do possível, os artistas populares que participaram das gravações. O encarte traz ainda a história da expedição em 25 páginas. Não é preciso muito esforço para visualizar os mestres do Cariri empunhando hoje seus pifes e tambores e dançando o reisado ao escutar um trecho do extenso registro.

O material editado na caixa é uma pequena mostra das 208 horas de gravação feitas na expedição que possui a Fundaj e que renderia, pelo menos, 104 CDs. Para quem sentir-se instigado pela parte ora publicada, os registros completos estão à disposição nos arquivos da Fundaj (www.fundaj.gov.br). Que sirvam de substrato para pesquisas sobre nossa música e de inspiração para experiências musicais contemporâneas como a que BID ousou em Bambas Dois.

FÁBIO MARQUES - REPÓRTER (Publicada no jornal Diário do Nordeste -Fortaleza/CE)

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