sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Escolas de cidade no interior de SP ganham rapadura na merenda

Novidade no cardápio escolar agradou a criançada e os nutricionistas. Nova sobremesa faz parte de programa para incentivar agricultura familiar.


As escolas de Paraibuna, no interior de São Paulo, ganharam uma novidade na merenda. Agora os alunos comem rapadura uma vez por semana. As crianças aprovaram, mas e os nutricionistas?

A novidade no cardápio agradou a criançada. A rapadura é servida aos alunos uma vez por semana, como sobremesa. A porção é pequena, de 20 gramas, mas segundo a nutricionista é suficiente para prevenir a anemia, fortalecer os ossos e dar energia depois do almoço.

“Para a criança na sala de aula ela é muito boa, porque ela é uma fonte de energia muito boa e é bem rica em magnésio, ferro, cálcio, vitaminas do complexo b e vitamina a”, afirma Neela Macedo.

A nutricionista lembra que as crianças não devem abusar da rapadura e nem esquecer da higiene bucal. “Como qualquer tipo de doce, a criançada tem que escovar os dentes depois sim”, ressalta.

A nova sobremesa faz parte de um programa para incentivar a agricultura familiar em pequenos municípios. Em Paraibuna, são sete fornecedores de alimentos para as escolas. “Eles fornecem hortaliças, frutas e agora a implantação da rapadura na merenda escolar”, diz a representante do Programa Nacional de Educação, Heloiza do Prado.

José Joaquim de Almeida produzia cachaça, mas decidiu aproveitar melhor a cana de açúcar. Agora, ele fornece rapadura para a merenda do município. “No início a gente fazia 500 pecinhas por semana e já deu um impulso porque a gente já está entregando 2,5 mil por semana para a prefeitura de Paraibuna. Para a gente foi bom”.

(Do Bom Dia Brasil - G1)

Ameaçado de extinção, umbuzeiro depende de investimento e pesquisa


Árvore é única no mundo e concorre com criação de animais no nordeste, segundo especialistas. Mas pesquisas e investimentos para aumentar exportação procuram salvar a planta típica do nordeste do país.

Batizado pelo escritor brasileiro Euclides da Cunha (1866 - 1909) como a "árvore sagrada do Sertão", o umbuzeiro corre risco de extinção na sua terra natal, o semi-árido brasileiro (nordeste). Devido a esse alerta feito por especialistas, organizações locais e nacionais trabalham para estimular a preservação e a exportação do umbu, uma planta que só cresce na caatinga, uma paisagem exclusivamente brasileira.

Extrair o fruto dessa planta única no planeta significa uma forma de sobrevivência para muitas comunidades nordestinas. "É uma das únicas fontes de renda para mais de 200 famílias" no âmbito de uma cooperativa no Estado nordestino da Bahia, exemplifica Avay Miranda, gestor de projetos da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

Para aumentar a produção de umbu e de outros itens agrícolas típicos da biodiversidade brasileira, a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaça (Coopercuc) quer aumentar as exportações e incentivar negócios sustentáveis com esses produtos.

Em fevereiro deste ano, por exemplo, Apex e Coopercuc assinaram um convênio. A Apex deverá disponibilizar R$ 1 milhão para ações de incentivo aos negócios e exportações. O dinheiro será distribuído à Coopercuc, para cultivar umbu, e a outras cinco cooperativas que trabalham com produtos típicos da região, como castanha do Brasil e de Baru, babaçu e cajá.

A ideia da parceria entre a Apex e as cooperativas é agregar valor aos produtos brasileiros e gerar renda para as famílias beneficiadas, além de contribuir, por exemplo, na conservação do umbuzeiro, explica Miranda, da Apex-Brasil.

Preservação da espécie - O umbuzeiro é considerado uma árvore pequena, com cerca de seis metros de altura. Como não existem relatos sobre a existência da planta em outras regiões do planeta, conservá-la é uma das principais preocupações de quem trabalha com ela.

Na caatinga praticamente não existem novas plantas de umbuzeiro. As espécies encontradas têm mais de 100 anos de idade, segundo o biólogo José Alves, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasp), que estuda o umbuzeiro há oito anos. O pesquisador é taxativo: "O umbuzeiro é uma espécie ameaçada de extinção, embora oficialmente não seja considerada ameaçada pelo governo brasileiro".

Para o autor do livro A Flora das Caatingas no Rio São Francisco, recém-publicado, o principal problema que ameaça a espécie é a criação inadequada de bodes, cabras e ovelhas no nordeste – região que, segundo o professor, detém o maior rebanho do Brasil. Como muitos animais são criados soltos na caatinga, comem as plantas recém-germinadas – o que faz com que as espécies mais jovens desapareçam.

José Alves aponta que, para evitar a extinção do umbuzeiro, os animais precisam ser mantidos em ambientes mais confinados. O pesquisador ainda alerta que, se as comunidades não mudarem a forma de criação de ovinos e caprinos, o trabalho da Coopercuc, de preservação do umbuzeiro, corre um sério risco: "Do contrário, teremos de escolher se vamos querer comer carne de bode ou provar umbu", adverte o professor.

Geleia brasileira no exterior - Em 2005, a Coopercuc iniciou as exportações de geleias para a França. Depois de atingir outros mercados, como Áustria e Itália, a cooperativa quer ampliar os negócios. "O objetivo é aumentar as exportações para a Europa. A Alemanha é um dos mercados que queremos atingir", conta o presidente da Coopercuc, Adilson Ribeiro.

Criada em 2004, a Coopercuc tem sede na cidade de Uauá, na Bahia, e reúne 244 cooperados, a maioria mulheres, que produzem doces e geleias à base de frutas nativas do sertão. O envolvimento dos cooperados é um dos motivos apontados para o sucesso da iniciativa. Desde 2005, a cooperativa já exportou para a Europa mais de 15 contêineres. Cada um deles estava carregado com 20 toneladas de geleia de umbu orgânica.

Umbu como cartão de visitas - Na opinião de especialistas, o umbu encontra adesão em novos mercados porque tem um sabor exótico: é agridoce e difícil de se comparar com outra fruta. José Alves, da Univasp, sugere que o umbu também seja exportado in natura.

Segundo Alves, a região entre Petrolina (PE) e Juazeiro (BA) é a maior produtora de frutas para exportação do Brasil. Mas não deve plantar frutas como uva, manga e melancia para exportação: "Sempre defendi que a solução é trabalhar com espécies nativas do semi-árido. O umbu é o principal cartão de visitas, tem a maior potencialidade para se fazer um trabalho de médio e longo prazo", acredita Alves.

Mas a preservação do umbuzeiro precisa ser impulsionada imediatamente "para que se garanta essa atividade sustentável pelos próximos dez, 20 anos - como acontece com a castanha do Pará e o açaí na Amazônia", afirma José Alves. Do contrário, a atividade tende a se tornar insustentável e a exportação para países europeus pode ser comprometida ao longo dos anos, avalia o especialista.

(Da Deutsche Welle)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Black Blocks se inspiram em Lampião

Mensagem postada pelo grupo do Rio Grande do Norte, na sua página no Facebook, em julho desse ano mostra que o cangaço e o seu líder mais famoso é referência para as ações promovidas pelos mascarados que transgridem as leis ao pautar causas sociais.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Filme reedita a maledicência de Cuíca de Santo Amaro


Por João Carlos Sampaio (A Tarde)

O personagem Cuíca de Santo Amaro, alcunha do poeta popular e propagandista Jorge Gomes, está longe de ser unanimidade. Ao contrário, ainda é lembrado por sua maledicência, por usar seus versos para chantagens, mas também por ter se tornado, entre 1930 e 1964, a voz da vida cotidiana de Salvador.

O principal desafio dos realizadores Josias Pires e Joel de Almeida diante do personagem está no fato de que apesar de importante, ele é controverso. Dele sobram muitas lendas e poucas imagens, tanto que sua vida pessoal é minúscula.

Mesmo sua literatura, contestada por cordelistas, perdeu-se ao longo dos anos. Neste aspecto, a teimosa realização do filme já é uma vitória, vital para a reconstituição do imaginário da Bahia do século 20.

Melhor ainda que Pires e Almeida não se contentaram apenas com entrevistas (falas que vão do cantor Chocolate da Bahia ao político Waldir Pires, passando por Mário Cravo Jr., Capinam e Mino Carta), mas cuidaram de alinhavá-las em prol de um filme propositivo e bem-humorado.

Ao darem espaço aos “novos comunicadores”, como França Teixeira, Raimundo Varela, Mário Kertész, citando ainda, sutilmente, José “Bocão” Eduardo e outros, sublinham o legado de seu personagem ao cronismo-jornalismo baiano.

Cuíca de Santo Amaro, o filme, olha o passado atento ao presente, instigando a reflexão, seja por suas criativas maneiras de recriar o biografado (narração estilizada, uso de arte e trechos de filmes), seja por construir um discurso de várias falas, onde o que não se diz também é muito importante.

Cuíca de Santo Amaro - O Poeta Mais Temido da Bahia
Direção: Joel de Almeida e Josias Pires
Documentário; 14 anos; 75 min; Brasil
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O POETA
Cuíca de Santo Amaro era denominado por muitos de “O poeta mais temido da Bahia”. Por meio dos mais de mil cordéis que escreveu e produziu, entre 1930 e 1963, Cuíca de Santo Amaro divulgava fatos do cotidiano e sempre presentes na história da humanidade. Com firmeza, ele criticava as mazelas sociais. Era considerado uma referência popular.

A sensibilidade e a genialidade de Cuíca de Santo Amaro eram marcantes no humor, na irreverência, na manifestação livre do pensamento, ao ponto de ser transformado em personagem dos romances Pastores da noite A morte de Quincas Berro D’Água, de Jorge Amado que descreveu Cuíca como uma “organização: escreve seus versos, manda imprimi-los, desenha ele mesmo os cartazes de propaganda que conduz sobre os ombros, vende folhetos com os poemas e canta os melhores versos para atrair a freguesia”.

Josias Pires, que dirigiu o filme documentário juntamente com Joel de Almeida, disse que “Cuíca é um personagem tão rico que muitos outros filmes e livros terão que ser feitos sobre ele… Cuíca de Santo Amaro é arauto. O anunciador. O anjo torto, da boca torta, poeta livre desancando a hipocrisia. A vida privada nas ruas. A verdade que sai da boca dos becos, dos subterrâneos”, disse.

Sancionada lei que reconhece a profissão de vaqueiro


Foi sancionada a Lei 12.870 que reconhece a profissão de vaqueiro no Brasil e dispõe sobre o exercício desta atividade, pela presidente Dilma Roussef, nesta quarta-feira, 16 de outubro, informou a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). As regras estavam previstas no Projeto de Lei da Câmara (PL) 83/2011, aprovado em setembro no plenário do Senado Federal.

Ficou definido como uma das atribuições dos vaqueiros a realização de tratos culturais em forrageiras, pastos e outras plantações para ração animal. Estão entre as atribuições dos vaqueiros cuidar da saúde de bovinos, bubalinos, equinos, muares, caprinos e ovinos, assim como alimentá-los e ordenhá-los. Também estão entre suas atribuições a manutenção das instalações dos animais, além do treinamento e prepará-los para eventos culturais e socioesportivos, garantindo que não sejam submetidos a atos de violência, estão entre as funções definidas na lei.

A lei define ainda, em seu artigo 4º, que a contratação dos vaqueiros é de responsabilidade do administrador, proprietário ou não, do estabelecimento agropecuário. Foi vetado o parágrafo único deste artigo, que estabelecia a necessidade de contratação de seguro de vida e de acidentes.

De acordo com a CNA o governo federal citou a realidade econômica do setor, em especial a dos pequenos produtores, para justificar o veto.

(Do jornal A Tarde)

CORDEL: Dominguinhos encontra Gonzagão

Caricaturas de Nei Lima (enviadas pelo autor)

O poeta Stélio Torquato Lima nos envia em primeira mão seu novo folheto intitulado O ENCONTRO DE GONZAGÃO E DOMINGUINHOS NO CÉU, um trabalho muito bom, como tudo o que ele tem produzido ultimamente. Não vamos publicá-lo na íntegra para não prejudicar a venda do folheto. Seguem alguns trechos do referido cordel:

Enquanto o Nordeste chora
A morte de Dominguinhos,
No céu há uma grande festa,
Pois um coro de anjinhos
Dá ao mestre as boas-vindas,
Em meio a canções tão lindas,
Qual som de mil passarinhos.

Zé Domingos de Morais,
O arretado sanfoneiro,
Nascido em 41,
A 12 de fevereiro,
Agradeceu com emoção
Aquela recepção,
Que o comoveu por inteiro.

O filho de Garanhuns
Viu passar logo em sequência
Um filme em sua mente
De toda a existência.
Viu seu pai, mestre Chicão,
Afinando acordeão
Com bastante competência.

Infância humilde, mas boa,
Vivida com os dois manos.
A sanfona de oito baixos
Que ele ganhou aos seis anos.
O estudo do instrumento,
Já demonstrando talento
Junto aos pernambucanos.

Deslizando os seus dedos
Pela extensão do teclado,
O menino demonstrava
Que estava vocacionado
Para a vida estradeira,
E ia, de feira em feira,
A lutar por um trocado.

Junto com os dois irmãos,
Logo um grupo formou.
Foi assim que “Os três pinguins”,
Como o trio se chamou,
Conseguiu algum dinheiro,
Um reforço financeiro
Que aos seus pais alegrou.

Dominguinhos, com esforço
E com grande disciplina,
Foi dominando o instrumento,
A adorável concertina.
E, dominando a sanfona,
Tirou os seus pais da lona,
Mudando deles a sina.

Foi tocando em um hotel
Que ele conheceu Gonzaga,
Um encontro decisivo,
Que traçaria a saga
Do talentoso guri.
Que tivera, até ali,
Uma existência aziaga

Um funcionário do hotel
Mandou que ele entrasse
E pediu que o garotinho
Para um hóspede tocasse.
Dominguinhos não sabia
Que Gonzaga é que queria
Que ele o talento mostrasse.

(...)
Nessa viagem no tempo
Dominguinhos se entretém.
De repente, ouviu uma voz
Que ele conhecia bem:
“Meu Jesus de Nazaré!
Aquele cabra não é
Meu conterrâneo Neném?”

Ouvindo o apelido
Que vinha lá da infância,
Dominguinhos se virou,
Vendo, a pequena distância
Daquela celeste plaga,
A figura de Gonzaga,
Que ria em abundância.

Sem qualquer tempo a perder,
Dominguinhos caminhou
Na direção de seu mestre,
A quem logo abraçou.
Ao reencontro dos dois,
Uma festa, logo depois,
Lá no céu se iniciou.

Assim, naquelas paragens
De paz e grande sossego,
Logo uma melodia linda,
De agradar troiano ou grego,
Fez Domingos sorrir,
Pois se estava a ouvir
“De volta pro aconchego”.

(...)
Dessa forma é que ocorreu,
Sem drama nem escarcéu,
O encontro de Gonzagão
E Dominguinhos no céu.
Digo a quem não crê em mim:
“Eu só sei que foi assim”,
E saio, rindo ao léu.

(Do blog Acorda Cordel)

ARTIGO: O sertão e muito mais

Luiz Gonzaga e as fronteiras do Nordeste

Por ANTONIO RISÉRIO, publicado no jornal Folha de São Paulo de 20/10/2013

Costumo dizer que Luiz Gonzaga e Dorival Caymmi eram sociologicamente previsíveis. Não que fossem necessariamente acontecer, como efeitos de alguma lei inflexível que regesse as coisas do mundo. Mas porque os ambientes ecológicos e sociais eram propícios à aparição de um e do outro.

Caymmi nasceu num recôncavo negro-mestiço impressionantemente aquático, pleno de orixás. Um espaço de praias, rios, jangadas, saveiros, marcado pela poesia e pela música do samba de roda e dos terreiros do candomblé.

Não foi apenas por acaso que nasceu na Bahia, dona da maior fatia do litoral brasileiro, um poeta como ele --o raro e claro cantor das canções praieiras, cultivando um samba diverso do samba já estilizado do Rio de Janeiro. Gonzaga, por sua vez, nasceu entre jagunços e vaqueiros, na região da pecuária e da cultura do couro, marcada por longos períodos de seca.

Era esperável que as circunstâncias socioecológicas se gravassem ou se imprimissem um dia, funda e profundamente, nas criações poético-musicais de ambos (no caso de Gonzaga, incluindo seus principais parceiros, Humberto Teixeira e Zé Dantas). E de fato elas se encarnaram. Não é por outro motivo que devemos tratar Caymmi como uma expressão estética concentrada da cultura tradicional litorânea da Bahia de Todos os Santos e seu Recôncavo. E Luiz Gonzaga como uma expressão estética concentrada do amplo e rico contexto em que se configurou a cultura nordestina --vale dizer, sertaneja.

PAISAGEM - Em "Os Sertões" (1902), Euclydes da Cunha contrapôs a lonjura sertaneja à extensão praieira. E o que ele vê no sertão é a paisagem atormentada. O "martírio da terra", que se deixa ler "no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos".

No interior desse martírio da terra é que ele vai situar o martírio humano, "reflexo da tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida". O ser humano em questão é, obviamente, o sertanejo, "rocha viva da nacionalidade". É o Nordeste das "figuras de homens e de bichos se alongando quase em figuras de El Greco". Nordeste das ossadas esbranquiçadas. Dos "sertões de areia seca rangendo debaixo dos pés". Das "paisagens duras doendo nos olhos".

Um é o Nordeste barroco-canavieiro, místico-erótico, com suas praias e seus orixás. Outro é o Nordeste do gado e do couro, seco-ascético-milenarista, com procissões que se arrastam pedindo chuva.

O rei do baião pertence ao Nordeste messiânico da caatinga abrasada, do sol sinistro e do chão malcriado. "O sertão é ele", declarou Câmara Cascudo, à lembrança dos ritmos e das paisagens dos sertões pernambucanos.

É por isso que foi ele --e não Dorival Caymmi-- a estrela das migrações nordestinas. Luiz Gonzaga se projetou no contexto dessa migração massiva, e desempenhou aí o papel de referencial de cultura, influenciando na coesão psicossocial do migrante e, graças ao sucesso que alcançou no sul, no processo de integração do "baiano" à nova realidade sudestina.

Circulando no eixo das cidades mais modernas do Brasil, tocando nas emissoras de rádio e gravando discos, entrou com o Brasil sertanejo país adentro. Ali onde milhares e milhares de camponeses passavam, de repente, à condição de urbanitas.

A história da cidade, no Brasil, foi marcada por isso. Por este deslocamento massivo da "Communitas" à "Gesellschaft", da comunidade à sociedade. Mais do que de uma transição brusca, trata-se de um corte profundo e radical.

O sujeito caía na roda-viva de um novo universo geográfico, climático, social e cultural. E jamais se dá sem dificuldade este salto em direção a uma outra ordem, em que passavam a vigorar direitos e modos associativos definitivamente dessemelhantes aos que as pessoas conheciam em seus lugares de origem.

Entrava em jogo, em São Paulo e em outras partes do país, e num horizonte de crise, toda uma teia de valores, padrões de comportamentos, estruturas de crenças, relações de trabalho etc. E tudo se desdobrando num meio muitas vezes hostil, em cujo âmbito se multiplicavam, por falar nisso, as "piadas de baiano".

FORÇA - Gonzaga desempenhou o papel nada insignificante, social e culturalmente, de força antidesagregadora. Atuando na dimensão dos signos --e em plano de massas--, ele trazia consigo um universo familiar aos nordestinos, com suas representações conhecidas e seus referenciais nítidos.

Desse modo, evitou que se esgarçasse ou se rompesse, na migração, o tecido original da cultura sertaneja nordestina. E ainda contribuiu para a sua afirmação nos bairros que hoje compõem o cinturão mais colorido e mais vivo da periferia da maior cidade que os brasileiros construíram.

Luiz Gonzaga viu que era possível reconstruir uma unidade na dimensão da cultura. E isto a partir de uma adequação não subordinada do subsistema cultural sertanejo às realidades em movimento numa nova esfera metropolitana.

Luiz Gonzaga foi o primeiro produto industrial que o Nordeste exportou. E se impôs. Conheceu herdeiros e futuros herdeiros. No final da década de 1950, podia olhar para trás e se congratular pela espetacular vitória cultural de seu projeto nordestino.

Depois disso, veio o declínio, no horizonte da cultura de massa de um país que se atualizava e procurava se afirmar no mundo como nação moderna. Era o Brasil sob o signo de Brasília.

No campo especificamente musical, o rock and roll, a bossa nova e, em seguida, a jovem guarda ocuparam o centro da cena. Com o tempo, porém, Gonzaga renasceria para o país, na voz da novíssima geração da década de 1960. E o baião continuou dando frutos, e os frutos do baião são muitos, encarnando a cultura tradicional como a encarnação do novo.

Vale dizer, Luiz Gonzaga não se presentifica, no Brasil, como exótico ou folclórico. Ele não apenas retrata uma tradição. Ele a reinventa. Recria a cultura nordestina para inserir suas formas e conteúdos na sociedade urbano-industrial que então se configurava no país. E isto a partir de uma estratégia estética claramente definida.

CAIS - Daí se extrai a base, a forma-função arquitetônica e tecnológica do novo espaço que nasce em Recife para celebrar o sertão e Gonzaga, o Cais do Sertão, que se compõe entre o "vernacular" e o "high-tech". O rei do baião usou a tecnologia de ponta de sua época. Para homenageá-lo, acionaremos a tecnologia de ponta da nossa.

Mas sem tecnolatria. Bem vistas as coisas, um novo museu pode ser "high" ou "low-tech" --porque tecnologia alguma é capaz de fazer sozinha um museu. O que tem de estar no cerne e acima de tudo são o conceito e os conteúdos. Se não for assim, o que se vai ter, no máximo, sob a denominação de museu, não passará, na verdade, de um papel de parede tecnológico, de pura (ou impura) maquiagem, sem qualquer densidade ou intensidade cultural.

O Cais do Sertão terá um caráter simultaneamente histórico-antropológico, estético e "high-tech", referenciado no horizonte coetâneo da vida sociotécnica brasileira, com todas as suas implicações culturais. Sempre campo de uma dialética entre a tecnologia e tradição. A obra gonzaguiana chamava irresistivelmente nessa direção.

Afinal, Gonzaga foi a própria encarnação do diálogo criativo entre a tradição e a invenção, entre o velho e o novo. Ele recriou formas musicais arcaicas num produto inédito. Trouxe a cultura tradicional nordestina para a sociedade e a cultura de massas. Nunca hesitou diante de nenhuma nova situação técnica. Atuou sem inibição nos "mass media", gravou discos, lidou com a publicidade e o marketing político (já desde a campanha presidencial de José Américo, em 1937), compôs jingles.

Ou seja: ele mesmo representa e significa essa dialética entre a invenção técnica e a criação popular tradicional. Um sujeito inteiramente à vontade tanto num estúdio de gravação, entre mesas de som, quanto no ambiente colorido das feiras nordestinas.

Natural que o Cais do Sertão tenha ido por esse caminho. Isso estava claro desde a formulação inicial do projeto, quando dizíamos, parafraseando Walter Benjamin, que Gonzaga foi a refundação da "poemúsica sertaneja" na época de sua reprodutibilidade técnica, num Brasil que começava a se modernizar, tomando o rumo urbano-industrial.

No Cais do Sertão o mundo de Luiz Gonzaga se revela. Ali onde as raízes deixam de estar na terra, para se projetarem no ar. Ele é um sertanejo --mas o mundo é o sertão e muito mais.

"Últimos Cangaceiros" será exibido na Uesb

O documentário de Wolney Oliveira, sobre os cangaceiros Moreno e Durvinha, será exibido na mostra de filmes que integra o III Congresso Nacional do Cangaço, na Uesb, no próximo dia 25 de outubro. Confira a sinopse e o trailer do filme abaixo.


Os últimos cangaceiros
Duração: 79 min. Ano: 2011
Produção: Bucanero Filmes.
Sinopse: Durante mais de meio século Durvinha e Moreno esconderam sua verdadeira identidade até dos próprios filhos, que cresceram acreditando que os pais se chamavam Jovina Maria da Conceição e José Antonio Souto, nomes falsos sob os quais haviam reconstruído suas vidas. Durvinha e Moreno fizeram parte do bando de Lampião, o mais controverso líder do cangaço. A verdade só é revelada quando Moreno, então com 95 anos, resolveu dividir com os filhos o peso das lembranças e reencontrar parentes vivos, entre eles seu primeiro filho, deixado aos cuidados de um padre, mais de cinco décadas atrás.


O longa será comentado por Enrique Hernandez.

Programação completa do III Congresso Nacional do Cangaço



CONFERÊNCIAS
Abertura - 22/10/2013  l  Teatro Glauber Rocha l  20:00h
“Se vier, que venha armado: cangaceirismo e masculinidade como definidoras das identidades sertaneja e nordestina”
Dr. Durval Muniz de Albuquerque Júnior
Doutor em História (Unicamp)
Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Lançamento de livro - Nordestino: invenção do 'falo': uma história do gênero masculino/1920-1940 (2ª ed., São Paulo, Intermeios, 2013).

Encerramento - 25/10/2013  l  Teatro Glauber Rocha l  20:00h
“O cangaço nas batalhas da memória”
Dr. Antônio Fernando de Araújo Sá
Doutor em História (UnB)
Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Lançamento de livro - O cangaço nas batalhas da memória (Recife, Editora da UFPE, 2011).

MESAS-REDONDAS
As mesas-redondas serão realizadas, na UESB, no período noturno e matutino.

MR 1 – História e historiografia do cangaço
23 (quarta) l Auditório 1 - Módulo Luizão l 19:00h
Coordenação: Prof. Ms. Jairo Nascimento (UNEB/Campus VI)
Prof. Ms. Marcílio Lima Falcão (SBEC/UERN)
Prof. Esp. Carlos Tadeu Botelho (UESB)
Prof. Manoel Neto (UNEB/CEEC)

MR 2 – Sertões e sertanejos na Bahia: poder e conflitos
23 (quarta) l Auditório 2 - Módulo Luizão l 19:00h
Coordenação: Prof. Dr. Argemiro Ribeiro de S.Filho (FAINOR)
Prof. Dr. Gilmário Moreira Brito (UEFS)
Prof. Dr. Erivaldo Fagundes Neves (UEFS)
MR 3 – Escravidão nos sertões baianos

24 (quinta) l Auditório 1 - Módulo Luizão l 19:00h
Coordenação: Prof. Dr. José Alves Dias (UESB)
Profa. Dra. Elisangela Oliveira Ferreira (UNEB)
Profa. Dra. Kátia Lorena Novais Almeida (UNEB)

MR 4 – O cangaço no cinema brasileiro
24 (quinta) l Auditório 2 - Módulo Luizão l 19:00h
Coordenação: Prof. Ms. Glauber Brito (UESB)
Profa. Ms. Caroline de Araújo Lima (UNEB)
José Umberto Dias (CineastaSalvador-BA)

MR 5 – Religiosidades sertanejas
25 (sexta) l Auditório 1 - Módulo Luizão l 9:00h
Coordenação: Prof. Ms. João Reis (UNEB/Campus VI)
Prof. Dr. Itamar Pereira de Aguiar (UESB)
Prof. Ms. Leandro Aquino Wanderlei (UFPE)
Prof. Dr. Lemuel Rodrigues (UERN/SBEC)

MR 6: Ensino de História: saberes e práticas
25 (sexta) l Auditório 2 - Módulo Luizão l 9:00h
Coordenação: Prof.ª Dra. Iracema Oliveira Lima (UESB)
Antônio Klevisson Viana (Poeta, Cordelista/SBEC)
Prof.ª Dra. Iracema Oliveira Lima (UESB)
Prof. Ms. Valter Guimarães Soares (UEFS)

SIMPÓSIOS TEMÁTICOS
Os simpósios temáticos acontecerão no período vespertino, das 13:30h às 16:30h, entre os dias 23, 24 e 25 de outubro.
ST 1 – CULTURA E REPRESENTAÇÕES NO SERTÃO NORDESTINO: MEMÓRIA, IDENTIDADES E RESSIGNIFICAÇÕES
José Ferreira Júnior    |    Local: Auditório do CAP
ST 2 – CONTOS, CANÇÕES E CENAS: O CANGAÇO EM IMAGENS, LETRAS E SONS
Caroline de Araújo Lima    |    Local: Sala 1 do CAP
ST 3 - LINGUAGENS E NOVAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO EM HISTÓRIA: DOMÍNIOS, ABORDAGENS, ENSINO E PESQUISA
Eduardo de Lima Leite, Jairo Carvalho do Nascimento e Maria Sigmar Coutinho Passos    |    Local: Sala 2 do CAP
ST 4 – NACIONALISMO E MODERNIZAÇÃO NO DEBATE INTELECTUAL, CIENTÍFICO E LITERÁRIO NA PRIMEIRA REPÚBLICA
Renailda Ferreira Cazumbá eWilson da Silva Santos    |    Local: Sala Biofábrica – Módulo de Medicina
ST 5 – MEMÓRIA, IDENTIDADE E PATRIMÔNIO
Aline de Caldas Costa dos Santos e Gisane Souza Santana    |    Local: Auditório 1 – Módulo Luizão
ST 6 – ESTUDOS EM HISTÓRIA CULTURAL: OBJETOS, PROBLEMAS E ABORDAGENS
Cleide de Lima Chaves e Márcia Santos Lemos    |    Local: Salão do Júri (Auditório)
ST 7 – VIOLÊNCIA, BANDITISMO E DISPUTAS POLÍTICAS NOS SERTÕES DO NORDESTE, SÉCULOS XIX E XX
Lina Maria Brandão de Aras e Rafael Sancho Carvalho da Silva    |    Local: Sala 3 – Módulo 1
ST 8 – ESCRITAS DE LUGARES: HISTÓRIA E LITERATURA, PAISAGENS E SENSIBILIDADES
Clóvis F. R. M. Oliveira e Valter Guimarães Soares    |    Local: Sala 4 – Módulo 1
ST 9 – RASTOS, RESTOS E ROSTOS: HISTÓRIA, LITERATURA, CINEMA E OUTRAS ARTES NA INVENÇÃO DOS SERTÕES
Alex dos Santos Guimarães e Joslan Santos Sampaio    |    Local: Sala 5 – Módulo 1
ST 10 – MOVIMENTOS SOCIAIS: RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE
Lemuel Rodrigues da Silva e Marcílio Lima Falcão    |    Local: Sala 10 – Módulo 2

MINICURSOS
Os minicursos acontecerão no período matutino, das 8:00h às 12:00h, na UESB, entre os dias 23 e 24 de outubro.
MC 1 – A APROPRIAÇÃO E MERCADORIZAÇÃO DA MEMÓRIA LAMPIÔNICA NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DE SERRA TALHADA – PE
José Ferreira Júnior    |    Local: Auditório do CAP
MC 2 – RELIGIOSIDADE E CONFLITO NO SERTÃO CONSELHEIRISTA: A PERSEGUIÇÃO DO CLERO DA BAHIA A ANTÔNIO CONSELHEIRO E CANUDOS (1874-1897)
Leandro Aquino Wanderlei    |    Local: Sala 1 do CAP
MC 3 – O CICLO DO CANGAÇO NO MUNDO IMAGINÁRIO DA LITERATURA DE CORDEL
José Paulo Ferreira de Moura    |   Local: Sala 2 do CAP
4. O CANGAÇO E AS VIAGENS PELA LITERATURA, MÚSICA E IMAGEM
Rubervânio da Cruz Lima    |    Local: Salão do Júri
5. UMA IDENTIDADE SERTANEJA?
Danilo Uzêda da Cruz    |    Local: Sala Biofábrica – Módulo de Medicina
6. ANÉSIA CAUAÇU: PIONEIRA NA PARTICIPAÇÃO “FEMININA” NO CANGAÇO
Domingos Ailton Ribeiro de Carvalho    |    Local: Auditório 1 – Módulo Luizão
7. MULHERES NEGRAS: PRÁTICAS CULTURAIS E MILITÂNCIA EM COMUNIDADES TRADICIONAIS DO ALTO SERTÃO BAIANO
Karla Dias de Lima e Leila Maria Prates Teixeira   |   Local: Auditório 2 – Módulo Luizão
8. O CANGAÇO COMO FENÔMENO SOCIAL
Josué Damasceno Pereira    |    Local: Sala 6 - Módulo 4
9. VEREDAS DO GRANDE SERTÃO: CRENÇA, AMOR E VIOLÊNCIA NO IMAGINÁRIO DO SERTÃO DE JOÃO GUIMARÃES ROSA
Halysson F. Dias Santos e Heurisgleides Sousa Teixeira    |    Local: Sala 7 - Módulo 4
10. REVIRAMUNDO – O PROCESSO DE CRIAÇÃO DE UM ENSAIO AUDIOVISUAL A PARTIR DA “ENCICLOPÉDIA AUDIOVISUAL DA CULTURA POPULAR DO SERTÃO”, DE GERALDO SARNO
Felipe Corrêa Bomfim e Glauber Brito Matos Lacerda    |    Local: Sala 8 - Módulo 4

LANÇAMENTO DE LIVROS
Sessão coletiva de lançamento de livros nos dias 23 e 24 (quarta/quinta), às 17:00h, no foyer do Teatro Glauber Rocha. Ver informações no site do evento.

ASSEMBLEIA DA SBEC
A assembleia da SBEC acontecerá às 17:00h no Auditório 1, Módulo Luizão.

MOSTRA DE FILMES
As sessões de cinema serão realizadas no Teatro Glauber Rocha. Horário das sessões: curtas-metragens, das 15:00h às 16:00h; e longas-metragens, das 16:00h às 18:30h.

Curtas:
Sessão 1 – 23 de outubro (quarta) l 15:00h
“Jeovah – Ensejos da Gamela“
Direção: Luíza Audaz; Ano: 2013; Duração: 6 minutos

Sessão 2 – 24 de outubro (quinta) l 15:00h
Pau de atiradeira
Ano: 2013; Direção: André Rocha, Cristina Cruz, Flávia Queiroz, Grazy, Isadora Alcântara, Maíra Dias, Mariana Rosário, Thássila Marina; Duração: 09:49 min

Sessão 3 – 25 de outubro (sexta) l 15:00h
"O homem que cantou as aves do sertão"
Direção: Patrícia Moreira; Ano:2012; Duração: 12 minutos

Filmes e Palestras – Sessões com longas-metragens
Sessão 1 – 23 de outubro (quarta) l 16:00h
Feminino cangaço
Direção: Manoel Neto e Lucas Viana; Gênero: Documentário; Duração: 75 min.; Ano: 2013

Sessão 2 – 24 de outubro (quinta) l 16:00h
Cantos e falas de Uauá
Direção: Roberto Dantas; Gênero: Documentário; Duração: 60 min.; Ano: 2012

Sessão 3 – 25 de outubro (sexta) l 16:00h
Os últimos cangaceiros
Direção: Wolney Oliveira; Gênero: Documentário; Duração: 79 min.; Ano: 2011

EXPOSIÇÕES
As exposições, que representam o universo cultural da arte popular nordestina, estarão localizadas no Foyer do Teatro Glauber Rocha. Autores: Romeu Ferreira, Aurélio Fred e Lú Mota.

SHOWS MUSICAIS
Acontecerão na Quadra da UESB (ao lado do Ginásio), a partir das 22h. Atrações:
22 (terça) – Alisson Menezes / Cantor, músico e compositor (Música Regional e MPB).
23 (quarta) – Ladrões de Vinil / Banda de Rock;
24 (quinta) – SODI / Banda de Reggae;
25 (sexta) – Andrade de Sertânia / Grupo de Forró.

Agenda da semana