segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Filme reedita a maledicência de Cuíca de Santo Amaro


Por João Carlos Sampaio (A Tarde)

O personagem Cuíca de Santo Amaro, alcunha do poeta popular e propagandista Jorge Gomes, está longe de ser unanimidade. Ao contrário, ainda é lembrado por sua maledicência, por usar seus versos para chantagens, mas também por ter se tornado, entre 1930 e 1964, a voz da vida cotidiana de Salvador.

O principal desafio dos realizadores Josias Pires e Joel de Almeida diante do personagem está no fato de que apesar de importante, ele é controverso. Dele sobram muitas lendas e poucas imagens, tanto que sua vida pessoal é minúscula.

Mesmo sua literatura, contestada por cordelistas, perdeu-se ao longo dos anos. Neste aspecto, a teimosa realização do filme já é uma vitória, vital para a reconstituição do imaginário da Bahia do século 20.

Melhor ainda que Pires e Almeida não se contentaram apenas com entrevistas (falas que vão do cantor Chocolate da Bahia ao político Waldir Pires, passando por Mário Cravo Jr., Capinam e Mino Carta), mas cuidaram de alinhavá-las em prol de um filme propositivo e bem-humorado.

Ao darem espaço aos “novos comunicadores”, como França Teixeira, Raimundo Varela, Mário Kertész, citando ainda, sutilmente, José “Bocão” Eduardo e outros, sublinham o legado de seu personagem ao cronismo-jornalismo baiano.

Cuíca de Santo Amaro, o filme, olha o passado atento ao presente, instigando a reflexão, seja por suas criativas maneiras de recriar o biografado (narração estilizada, uso de arte e trechos de filmes), seja por construir um discurso de várias falas, onde o que não se diz também é muito importante.

Cuíca de Santo Amaro - O Poeta Mais Temido da Bahia
Direção: Joel de Almeida e Josias Pires
Documentário; 14 anos; 75 min; Brasil
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O POETA
Cuíca de Santo Amaro era denominado por muitos de “O poeta mais temido da Bahia”. Por meio dos mais de mil cordéis que escreveu e produziu, entre 1930 e 1963, Cuíca de Santo Amaro divulgava fatos do cotidiano e sempre presentes na história da humanidade. Com firmeza, ele criticava as mazelas sociais. Era considerado uma referência popular.

A sensibilidade e a genialidade de Cuíca de Santo Amaro eram marcantes no humor, na irreverência, na manifestação livre do pensamento, ao ponto de ser transformado em personagem dos romances Pastores da noite A morte de Quincas Berro D’Água, de Jorge Amado que descreveu Cuíca como uma “organização: escreve seus versos, manda imprimi-los, desenha ele mesmo os cartazes de propaganda que conduz sobre os ombros, vende folhetos com os poemas e canta os melhores versos para atrair a freguesia”.

Josias Pires, que dirigiu o filme documentário juntamente com Joel de Almeida, disse que “Cuíca é um personagem tão rico que muitos outros filmes e livros terão que ser feitos sobre ele… Cuíca de Santo Amaro é arauto. O anunciador. O anjo torto, da boca torta, poeta livre desancando a hipocrisia. A vida privada nas ruas. A verdade que sai da boca dos becos, dos subterrâneos”, disse.

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