quarta-feira, 13 de março de 2013

O Papa na Literatura de Cordel


Por Thelma Regina Siqueira Linhares (Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais e Pesquisadora do folclore, com trabalhos publicados pela FUNDAJ-Fundação Joaquim Nabuco)

O poeta popular, sempre à procura de novos temas para a manifestação de sua criatividade, encontrou, recentemente, por ocasião da visita do Santo Padre ao Brasil, fonte fecunda para a expressão do seu pensamento criador.

Várias foram os folhetos escritos sobre o fato, incorporando que foi à temática da literatura de cordel, uma vez que a escolha do tema refletiu a “necessidade de fixar os acontecimentos, de registrar as figuras que dele participaram, de anotar a maneira como decorreram, enfim, tudo aquilo que, sem imprensa, sem jornais, sem rádio as gerações mais antigas tiveram necessidade de gravar e transmitir através da história popular, para fazer a sua história.” (1)

Embora os modernos meios de comunicações tenham realizado uma ampla cobertura do acontecimento, coube, ao poeta popular, a função informativa do fato, numa linguagem do povo para o povo:

“Conforme notícia lida
Em nosso Jornal Falado
Nossa capital vai ter
3 dias de feriado
Pois o Papa representa
Nosso ministro de estado.” (7)

“Sai de Roma no dia trinta
Num avião de conforto
E mais sendo o mês de Junho
Meus versos não fica torto
Séte de Julho a tarde
Chega aqui no aeroporto.” (5)

“O Papa corre doze Estados
Vou falar neles bastante
Fortaleza e o Recife
E Manaus mais adiante
Baia Minas Gerais
E a capital Bandeirante.” (5)

O acontecimento, classificado como um fato circunstancial de grande repercussão social, envolveu multidões ansiosas de ver, de perto, o substituto de São Pedro na Terra. A singularidade do acontecido – primeira visita de um Papa ao país – também contribuiu para a mobilização e participação do brasileiro que fez presença nos locais de cerimônias e encontros, no decorrer dos doze dias de peregrinação de Sua Santidade:

“Brasileiro dispertem
Fiquem atentos a ocasião
Para saudar Karol Wojtyla
Com a bandeira na mão
Presidente de Estado
Chefe do Mundo cristão.” (6)

“Vamos receber o Papa
Com devoção e troféu
Recebendo a sua bença
Tirando a ele o chapéu
Pois ele á a semelhança
De Jesus Cristo no Céu.” (7)

“A visita que faz o Papa
para nós é honraria
nós que somos cristãos
da Santa Virgem Maria;
essa visita saudamos
com coração abraçamos
repletos de alegria.” (3)

As origens de nossa própria História, caracterizada pela miscegenação de raças e culturas, refletem-se no sincretismo religioso que constitui um dos aspectos da identidade cultural do Brasil. Desta maneira, doutrinas religiosas diversas, algumas opostas, até, expressam-se livremente no agir do povo, numa harmonização de idéias, conceitos e dogmas:

“Hoje o católico frequenta
terreiro e macumbaria
sai da missa e faz baralho
na maior patifaria...
Deus perdoe esses coitados
quantos atos lamentados
que marcam sua agonia.” (3)

“O mais hábil Missionário
Já faz a massa sentir
Que só mesmo a união
Faz alcançar o porvir
A obra de Deus é um fato
Ninguém pode resistir.” (6)

A religiosidade popular também traduz nossas origens histórico-sociais. A prática religiosa, muitas vezes impregnada de superstições, os exemplos, as maldições e as profecias, são alguns dos recursos usados para se chegar até Deus, buscando a solução dos problemas humanos, materiais e espirituais:

“Pedi ao Santo Padre
Nosso percursor da paz
Para acabar carestia
Drogas e pecado mortais
Ele disse: tudo é fácil...
Mas carestia jamais.” (7)

“O povo só lembra Deus
Na hora que sente fome
Mas quando enche a barriga
De Deus esquece o nome
São ovelhas desgarradas
Que a miséria consome.” (7)

“O Anti-Cristo perverso
a terra dominará
quem for cristão vai sofrer
o que não pode imaginar
mas, no fim a luz bendita
fará a Santa Escrita
sobre a terra triunfar.” (3)

“Durante o resto do século
Vai de peó a peó
O povo aderiu ao roubo
O crime e a catimbó
E quem é milionário
Vai ficar pobre de jó.” (7)

Foram abordados, ainda, problemas sociais. Referindo-se aos bairros residenciais de gente fina e àqueles mais populares, foram tecidos os seguintes comentários:

“Não vão mostrar para o Papa
Somente Boa Viagem
Ou as Graças, o Espinheiro
Que formam bela paisagem
Eu sei que ele não deseja
Mas é bom que ele veja
No Coque, grande visagem.” (4)

“Mostrem a lama de Peixinhos
Os buraco do Jordão
O Alto José do Pinho
Os casebres do Fundão
Mostrem Recife todinha
Do Vietnã a Mustardinha
Orgulhos deste torrão.” (4)

A comercialização de objetos para perpetuar concretamente na memória popular o grande acontecimento que foi, entre nós, a permanência de João Paulo II – sem esquecer a possibilidade de lucros para alguns – fez surgir uma variedade imensa de souvenir: bandeiras, chaveiros, camisas, sacolas, discos, revistas, enfim, mil objetos comercializáveis... Todos queriam uma lembrança do Papa.
Uma crítica à exploração comercial em torno do fato foi escrita nesta estrofe:

“Na visita que o Papa faz
o demônio, com atenção
vende jóias e utencílios
em nome da religião
faz propaganda, embrutece
mas da religião se esquece
como no tempo de Adão.” (3)

A tentativa de se registrar para o futuro a figura física de Karol Wajtyla e os fatos que cercaram sua permanência no país, encontrou eco na atividade intelectual do poeta popular que traduziu, em versos, sentimentos e emoções próprias e coletivas:

“Tem cinquenta e nove anos
muito forte e rapides
um sorriso simpático
essa é a primeira vez
e aqui no Brasil
vai falar em português.” (5)

“No dia 7 de julho
Num festival de pureza,
As ovelhas ou fiéis
Do Recife, com certeza,
Irão receber o Papa
Nos braços da Gentileza.” (2)

“Os sinos irão bater
De alegria, em sua vinda...
E quando ele nos deixar
Tocarão de dor, ainda:
Será sua despedida
Muito triste, embora linda.” (2)

“Vamos externar nosso amor
Simpatia e devoção
Ao grande Sumo Pontífice
Na sua Santa Missão
Essa centelha que brilha
Com tarde de verão.” (6)

Na literatura de cordel, enriquecida que foi em mais um tema, identifica-se a criatividade do poeta popular nesta manifestação folclórica tão peculiar do Nordeste brasileiro. É mais uma fonte de inspiração que surge, desabrochando em obras-primas da literatura popular – o folheto.

Bibliografia:
(1) DIÉGUES JÚNIOR, Manuel . Literatura de Cordel. Cadernos de Folclore. Rio de Janeiro, 2:38 p., 1975.
(2) REGO BARROS, Homero do. Visita do Santo Papa do Recife. Recife, 1980.
(3) BATISTA, Abraão. As Professias Sobre o Papa e o Fim do Mundo. Juazeiro do Norte, 1980.
(4) GARANHUNS, Valdeck de. Tem Papa na Área. Olinda, 1980.
(5) RODRIGUES DOS SANTOS, Leonardo. A Visita do Papa ao Brasil. Recife, 1980.
(6) PALMEIRA DA SILVA, Antônio. Papa do Povo João Paulo II. Recife, 1980.
(7) SOARES, José. A Chegada do Santo Papa. Recife, 1980.

(*)Publicado pela FUNDAJ – Fundação Joaquim Nabuco, série Folclore, nº 109, em abril de 1981.

Um comentário:

Thelma Regina Siqueira Linhares disse...

Descobri, agorinha, O Papa na Literatura de Cordel publicado neste blog sobre cultura popular. Quero agradecer a inclusão do referido texto e parabenizar pela beleza de layout e riqueza de conteúdo. Paz sempre! Thelma Regina
(thelmaregina.blogspot.com)