sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Mestre Vitalino – Um Artista Naïf

Por J. R. Araújo


Arte naif é a arte do povo, arte popular, especialmente da área rural, embora possa manifestar-se no contexto urbano. Não constitui uma “escola” ou movimento em que se possa delinear suas raízes históricas ou conteúdo formal bem definido. Entretanto, alguns elementos significativos lhe são bastante comuns, mesmo diante da diversidade cultural em que possa aflorar. O Brasil, França, Haiti, Itália e toda África, são considerados os países de maior conteúdo e importância na produção de arte-naif. O laboratório é a realidade do homem simples, autodidata, que busca na sua arte, seu maior dom: capacidade de expressão. É arte figurativista, de apelo ao imaginário popular, que retrata o dia-a-dia da realidade social com humor, no mais das vezes, refinado. Desprovida de elementos heróicos, incorpora, todavia, elementos míticos e lendários da sociedade local, retratando-os de forma bem cotidiana, quase casual. Na verdade o grande herói é o próprio homem em suas atividades profissionais ou sua aventura pessoal, sempre na busca de uma vida melhor. A ausência de elementos emocionais e a despretensão sócio-política fazem dela uma arte sem qualquer leitura subjacente, não engajada e por isso chamada naif, ingênua.

Vitalino Pereira dos Santos, Mestre Vitalino, ceramista pernambucano, nascido em Caruaru no ano de 1909, filho de mãe ceramista e pai lavrador, começou, desde cedo, a “brincar” de fazer bonecos; inicialmente bois, vacas, jegues e cavalos como seus próprios brinquedos. Mais tarde aumentaria seu acervo criativo incluindo vaqueiros, cangaceiros, médicos e dentistas em ação, advogados, costureiras, família de retirantes, cenas de casamentos, batizados e festas diversas, bandas de pífanos, grupos de festejos etc. Tudo que sua imaginação fértil podia criar, captando o universo em que vivia. Divulgou sua arte da maneira mais naif possível; nas feiras locais, em especial a Feira de Caruaru, com objetivo único de vender suas peças como brinquedos de crianças.

Bem conhecidas são suas peças de grupos, entre elas podemos citar os enterros em rede, bandas de pífanos ou forró, vaquejadas etc. Outro aspecto interessante é seu trabalho consonante o imaginário popular como “O vaqueiro que virou cachorro”, “A luta do homem com o lobisomem” e outros, temas freqüentemente descritos nos livretos de literaturas de cordel.

Após ficar conhecido em Caruaru e todo o estado, transpôs fronteiras e, a partir dos anos quarenta, sua obra começou a ser divulgada inicialmente no Rio de Janeiro e logo para todo país. Hoje, suas peças estão espalhadas em museus e nas coleções de admiradores, de estudiosos de folclore e arte popular. Algumas de suas peças estão expostas no Museu de Arte Popular de Caruaru, Casa Museu Mestre Vitalino, no Alto do Moura, na casa onde viveu, no acervo do Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife e até no Museu do Louvre, Paris.


Mestre Vitalino criou escola; tanto que após sua morte, em 20 de Janeiro de 1963, suas peças continuaram produzidas pelos filhos, netos e outros ceramistas da região. Sendo o Brasil considerado um dos mais importantes países do mundo no que concerne a art-naif, certamente que Mestre Vitalino ocupa uma posição de maior destaque.


Recife, Setembro de 2004

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