domingo, 19 de abril de 2015

Acesse o Acervo Maria Alice Amorim


Folhetos, almanaques e folhas volantes: eis aí o resumo do que contém o Acervo Maria Alice Amorim. O conjunto das folhas volantes oferece novenas, canções, orações, poemas. Os almanaques incluem alguns dos produzidos em Portugal. Quanto aos folhetos, cerca de sete mil exemplares, são praticamente todos brasileiros, à exceção de um corrido mexicano e de quatro portugueses existentes no acervo, que foram adquiridos, respectivamente, num sebo da Cidade do México e num antigo alfarrabista da cidade do Porto. Constituído a partir do início dos anos 80, a coleção ganhou maior consistência na década 90, com o acréscimo de exemplares doados pelo poeta e então sebista Pedro Américo de Farias e, sobretudo, com aquisições efetuadas pela pesquisadora e proprietária do acervo, através de contatos sistemáticos com poetas e editores, não somente do Recife, também do restante do país, em decorrência de viagens, visita a feiras de livros e de artesanato, intercâmbios pela via postal, e, ainda, constantes escambos mediante a colaboração de poetas, sobretudo a do cordelista, editor e xilógrafo Marcelo Soares.

A reunião do acervo começou de maneira bem despretensiosa, sem nenhum intuito de formar extensa coleção, muito mais pelo prazer de acompanhar a produção cordelística e, assim, poder escrever, com alguma pertinência, sobre o tema. Os exemplares acrescidos iam sendo guardados aleatoriamente até que, a partir do ano 2000, quando foi criada no Recife uma grande e anual feira de artesanato, o volume começou a crescer rapidamente, em virtude da presença de autores e editores de cordel, a exemplo dos cearenses José Lourenço, Abraão Batista, Arievaldo e Klévisson Viana, além dos pernambucanos Marcelo Soares e Ana Cely Ferraz. Também a participação efetiva de diversos deles na Bienal do Livro de Pernambuco, inclusive dos membros da Unicordel (a partir do ano de fundação do grupo, 2005), garantiu novos e constantes acréscimos à coleção. Em decorrência desse crescimento, foi ficando difícil, quase inviável, a consulta ao acervo, pois nada estava catalogado, a não ser apenas guardado por ordem alfabética de autor e somente parte dele, ou seja, o que foi colecionado até 2003.

Quando foi aprovado o projeto de digitalização e catalogação, a providência mais imediata foi exatamente a organização alfabética, que já nem existia mais, de meados dos anos 2000 em diante, em virtude de contínuas consultas a temas, títulos e autores variados. Vislumbrar a possibilidade de catalogar e, principalmente, digitalizar o acervo representava, então, um grande avanço em relação ao modo como se poderia mergulhar nele, cruzando dados, agrupando os folhetos por diversos tipos de classificação e, mesmo, em relação ao modo como vinha sendo classificado e acondicionado nas gavetas. Durante o processo de catalogação, como já havia folhetos que, em virtude de pesquisas em andamento, estavam agrupados por temática, ficou decidido que esta classificação seria mantida. Um exemplo é do atentado às torres gêmeas, outro é o das pelejas virtuais, que estão registrados como “coleção 11 de setembro” e “coleção ciber cordel”. Quanto aos folhetos cujo tamanho é maior do que o usual 11 x 16 cm, passaram a ser classificados como “coleção livretos”, e, dentre esses de tamanho aumentado, a “coleção Luzeiro” reúne os folhetos daquela editora paulista.

Devido à riqueza de informações, inclusive de elementos gráficos – como a utilização de tipos móveis, gravação de títulos em madeira, uso de zincogravura nas capas, escolha das cores e da composição plástica, sofisticação de gravuras e desenhos –, todo esse manancial nos impeliu à necessidade de registros complementares nas notas de catalogação, o que não foi possível realizar de maneira integral, devido à gigantesca tarefa de catalogar e digitalizar, em apenas doze meses, todo o montante, que extrapola a casa dos sete mil. E foi tarefa gigantesca não somente em volume de serviço, quanto também em qualidade da pesquisa, que exigia sempre a resolução de impasses e de enigmas.

Descobrir o máximo possível o nome completo de autores que utilizam pseudônimos foi uma dessas tarefas difíceis. Outra: creditar, de modo correto, a autoria naqueles folhetos em que apenas aparece o nome do editor-proprietário ou não aparece registro nenhum. Outra, ainda: identificar os artistas que utilizam apenas iniciais nos trabalhos de capa. Mais outra, agora de ordem prática, para facilitar as buscas por editor: uniformizar nome de editoras, quando o registro apresentasse variações, como foi o caso da Fundação Casa das Crianças de Olinda, catalogada sob esta forma, e que também vinha editada como Casa das Crianças de Olinda, e também Tipografia Casa das Crianças. Foi o caso, ainda, da Lira Nordestina, assim catalogada, embora variasse a nomenclatura conforme o acréscimo de Gráfica ou Tipografia.

Para um primeiro passo quanto à sistematização de informações catalográficas de numerosa biblioteca especializada, já se consideraria de bom tamanho somente a possibilidade de poder acessar a ficha técnica dos cordéis no catálogo digital ora produzido, e duplicado em mil cópias de DVD. Entretanto, propositadamente o projeto de pesquisa ousou bem mais, oferecendo a seguinte contrapartida social: a possibilidade de acesso à integralidade do acervo, mediante consulta presencial, em instituição de pesquisa. E, finalmente, pensando em quem tem apenas a possibilidade de visitá-lo na Internet, é oferecida a chance de navegar pelo catálogo no site, onde se viabiliza, inclusive, o constante lançamento de novos dados acerca da movente coleção.

Acesse aqui: cibertecadecordel.com.br

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