quinta-feira, 5 de julho de 2012

Um pouco sobre Patativa do Assaré


Antônio Gonçalves da Silva
5 de março de 1909 - 8 de julho de 2002
Serra de Santana, zona rural de Assaré (CE)

Patativa e a cultura popular 
Por Rosemberg Cariry*

A cultura popular nordestina é uma cultura diversificada, rica e complexa, que vem plasmando-se, através dos séculos, com a contribuição de muitos povos e de muitas culturas, desde o processo de colonização até a contemporaneidade. Esta cultura popular, regional e universal ao mesmo tempo, é inesgotável fonte de renovação para os mais importantes movimentos culturais e artísticos do País. Impossível citar todos os nomes nos diversos campos das artes. Escritores, poetas, artistas e pensadores de todo o País têm obras fertilizadas com os signos da cultura nordestina. Se esta cultura pode oferecer elementos para a construção das artes contemporâneas e eruditas é porque tem a capacidade de também gerar seus próprios artistas, escritores e poetas, inseridos na vida cotidiana. E aqui falamos de artistas genuinamente populares, nascidos no seio do povo, aplaudidos e amados por esse mesmo povo. Como exemplo maior da força comunicativa e social da nossa poesia popular, temos Patativa do Assaré, um dos maiores poetas populares brasileiros de todos os tempos, síntese de todas essas vertentes, profundo elo que une o passado ao presente, projetando-se para o futuro.

Mesmo hoje, após a sua morte, Patativa do Assaré é tido como uma referência literária popular já clássica. A sua poética foi estudada em centros acadêmicos na Europa e no Brasil, e o reconhecimento oficial veio através das muitas homenagens que recebeu de importantes instituições acadêmicas como o título de doutor "Honoris Causa" da Universidade Regional do Cariri, da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade Federal do Ceará. Em 1995, recebeu das mãos do Presidente da República, em ato público no Teatro José de Alencar, prêmio do Mérito Cultural do Ministério da Cultura, além de dezenas de outras comendas e títulos, em todo o País.

Basta dizer que, mesmo quando ainda era violeiro e encantava os sertões com o som da sua viola e a beleza de seus versos improvisados, a sua fama já chegava aos salões literários das grandes cidades, e a sua obra despertava o interesse de renomados escritores e intelectuais brasileiros. Patativa do Assaré é um cristão primitivo e radical que bebeu na fonte do melhor humanismo. Se o Brasil não tem ainda o seu poeta-nacional, que simbolize e expresse o sentimento de nação, como Garcia Lorca na Espanha, Pablo Neruda no Chile, Camões em Portugal ou Nazin Hikmet na Turquia, o Nordeste, popular e rebelado, tem o seu: PATATIVA DO ASSARÉ.

Realizar um filme documentário sobre Patativa do Assaré foi desvendar não apenas a biografia e a obra de um poeta, mas mergulhar no vasto oceano da cultura coletiva e tatear os caminhos onde a história individual se encontra com o destino histórico de todo um povo. Para elaboração deste trabalho, foram pesquisadas muitas fontes escritas e da tradição oral; muitos registros audiovisuais e iconográficos. Todo este material, rico de informações e de suportes variados, destaca a relevância da obra patativiana, o significado político dos seus atos e a sua imensa contribuição à cultura brasileira.

Patativa do Assaré participou de importantes momentos políticos brasileiros: Ligas Camponesas, resistência à ditadura militar, campanha pela Anistia e pelas Diretas Já. Na aérea cultural, foi homenageado pela Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência (1979) e participou ainda dos principais movimentos culturais do seu tempo: Movimento de Cultura Popular (MCP – Recife), Festivais de Música Popular Brasileira, Grupo de Arte Por Exemplo, Movimento Nação Cariri e Encontro das Culturas Populares do nordeste, entre tantos outros. A partir de 1970, Patativa do Assaré passou a simbolizar para os jovens nordestinos uma voz da resistência e das lutas democráticas. Além da imagem “oficial” do poeta, o documentário mostrará aspectos do trabalho na roça, do cotidiano com a família e com os amigos, no sítio Serra de Santana e na cidade de Assaré, onde era chamado pelo nome carinhoso de “Senhorzinho”.

*Roteiro, direção e montagem do filme documentário "Patativa do Assaré - Ave poesia" (2007)




A obra de Patativa

"A poesia de Patativa é como as veredas e picadas do sertão. Tem rastro de gente, de gado, de bode, de preá, de tatu, só não tem pegadas de caiporas, duendes, almas penadas, cousas do outro mundo. Sua poesia é de um realismo cruciante. Não tem metáforas, tropos, estilizações beletristas, erudição livresca como a de certos cantadores. Suas imagens são naturais, colhidas da terra como o milho, o feijão, a batata que ele planta nos seus roçados. A Bíblia diz que o homem foi feito do barro da terra. Mas Patativa foi feito também com o sol nordestino, com o luar prateado das nossas noites silenciosas, com as águas das chuvas, com as lágrimas e o suor do sertão" - Padre Antonio Vieira (ler texto completo).

"O que faz a força e o sabor da poesia de Patativa do Assaré é, sem dúvida, este vínculo indestrutível entre o poeta, o sertão e o público.  O canto só pode nascer da repetição do quotidiano, com seu labor, suas alegrias e sofrimentos.  O canto só pode ser plenamente compreendido por aqueles que comungam desse quotidiano e dessas mesmas experiências" - Sylvie Debs (ler texto completo).

Livros
Inspiração Nordestina - 1956
Inspiração Nordestina: Cantos do Patativa -1967
Cante Lá que Eu Canto Cá - 1978
Ispinho e Fulô - 1988
Balceiro. Patativa e Outros Poetas de Assaré - 1991
Cordéis - 1993
Aqui Tem Coisa - 1994
Biblioteca de Cordel: Patativa do Assaré - 2000
Balceiro 2. Patativa e Outros Poetas de Assaré - 2001
Ao pé da mesa – 2001

Poemas mais conhecidos
A Triste Partida
Cante Lá que eu Canto Cá
Coisas do Rio de Janeiro
Meu Protesto
Mote/Glosas
Peixe
O Poeta da Roça
Apelo dum Agricultor
Se Existe Inferno
Vaca estrela e Boi Fubá
Você e Lembra?
Vou Vorá

Uma entrevista com Patativa
Ricardo Kotscho: O que você falaria para os companheiros nordestinos que estão em São Paulo, no Rio, como está o Nordeste hoje? Vale a pena voltar?
Patativa: A vida está difícil em toda a parte, mas lá está pior porque a legião de nordestinos que tem lá é um absurdo. E o desemprego faz com que eles procurem um meio de voltar para a própria terra. Mesmo sofrendo, mas está sofrendo em sua terra. Mas não vou fazer poesia dentro deste tema não.

Ricardo Kotscho: É muito triste, né? Não dá vontade, não dá inspiração...
Patativa: Não, inspiração eu tenho em toda hora. Em tudo o que eu quero. É porque eu não lembro nem quero. Naquele tempo, também já tinha gente querendo voltar e não podia. Lá tem muita gente, rapaz, que quer voltar e não pode voltar (leia entrevista completa aqui).

Reportagem especial

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