quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Cordel peleja com o tempo


Reportagem Do Diário do Nordeste

André Dib Recife, domingo, 12 de junho de 2011          

Resistente às intempéries, a literatura de cordel segue a existir. Nascido na Península Ibérica, o livreto, facilmente reconhecido pelo formato de bolso, poucas páginas, xilogravura à frente e títulos incomuns, há muito não é editado em lugar algum do mundo, a não ser no Brasil, onde tem sido incorporado pelo cinema, música, artes plásticas, teatro. E chega ao século 21 preservando sua forma original de papel e tendo seu discurso apropriado pelos seus supostos algozes, as emissoras de rádio, TV e internet.

O tradicional folheto Historia de João de Calais impresso em Lisboa, no século 19, ganhou versão recente em Mossoró (RN), em 2007, com ilustração de Jô Oliveira. Eis a curiosa longevidade do cordel brasileiro. Se, até os anos 1950, cumpriu a função de jornal do matuto, hoje migrou para o asfalto da cidade e endereços da web com novos temas, contextos, formas e autores.

Editoras revelam que a venda de folhetos tem crescido nos últimos meses. "O mercado vai bem, estamos conquistando espaço e evidência", diz Ana Ferraz, sócia de Ivan Maurício na Editora Coqueiro. Com sede no bairro de Campo Grande, no Recife, a editora comemora este ano duas décadas de atividade, mil títulos no catálogo e quase 4 milhões de cópias vendidas. Somente O peido que a nega deu, de José Costa Leite, soma 10 mil cópias vendidas.

Ana acredita que a novela Cordel encantado contribuiu para aumentar o interesse pelo produto. "A quantidade de encomendas subiu radicalmente". No último Cine PE, a Petrobras contratou a Coqueiro para rodar 50 mil cópias com adaptações de filmes brasileiros famosos. Ana diz que a maioria dos clientes é de outros estados e que 97% dos pedidos são feitos via internet. Convites de casamento e festas de aniversário no formato dos livrinhos também têm boa saída.

"O cordel vive um momento melhor. Virou objeto de pesquisa. E temos uma boa safra de bons cordelistas, escolarizados", diz Marcelo Soares, que desde 1997 mantém a Folhetaria Cordel, em Timbaúba, interior pernambucano. Seu best seller é Fim de semana em casa de pobre, escrito por José Soares (pai de Marcelo) em 1974, com 20 mil exemplares vendidos. "A informática facilitou muito as publicações, agora o próprio poeta pode fabricar e a rede mundial ampliou o acesso".

Ana enxerga mudança também no perfil do público. Novos tempos, novos leitores. "Antigamente era a classe média baixa. Hoje fica difícil definir, mas posso garantir que passa por um público mais elitizado, estudantes, professores, pesquisadores. No interior talvez seja diferente, ainda se encontram cordelistas cantando como Costa Leite, que continua nas feiras aos 83 anos".


Uma arte em extinção?
Especialistas tomam posições diferentes quanto ao futuro do cordel no novo contexto de produção e distribuição

Com o advento da imprensa, que adaptou a tradição da poesia oral, o folheto de cordel começou a circular na França, Espanha e Portugal para depois, com a colonização, chegar ao Brasil e outros países da América Latina. Segundo o pesquisador Arnaldo Saraiva, da Universidade do Porto, o registro mais antigo desta modalidade de literatura remonta às folhas volantes do século 16.

Em sua passagem pelo Recife, onde já expôs sua coleção de cordéis portugueses, Saraiva foi convidado para participar do 1º Congresso de Cordel, promovido há 15 dias pela Faculdade de Ciências Aplicadas e Sociais de Petrolina. Considerado um dos maiores especialistas no assunto, ele desenhou um amplo panorama histórico do cordel no mundo, mas não foi otimista quanto a seu futuro no Brasil.

"Ele morreu em todas as partes do mundo", disse, durante palestra. E afirma que, como o suporte papel define o conteúdo, o folheto virtual é outra coisa. "A internet será um golpe mortal. Se por um lado ela é um canal de divulgação, por outro banaliza e descaracteriza o cordel. E os poetas hoje são universitários que imitam essa linguagem".

Pesquisadores brasileiros discordam. Hélder Pinheiro, da Universidade Federal de Campina Grande, não vê problema no novo contexto de produção e distribuição. "O cordel não morreu no Brasil porque ainda tem ressonância social. Indiferente ao meio em que ele se manifesta, o importante é que a poesia permanece".


Na contramão do digital, um grupo de cearenses fundou a Academia de Cordelistas do Crato, que há 20 anos produz folhetos em prensa de tipos móveis e xilogravuras talhadas em pedaços de umburana, tal qual se fazia antigamente. O método tradicional é atrelado à organização interna que, aos moldes das academias de literatura erudita, estipulou regras estéticas e comportamentais.

Autora do livro No visgo do improviso ou a peleja virtual entre cibercultura e tradição, Maria Alice Amorim diz que uma realidade não exclui a outra e que hoje se observa uma arte de formas clássicas que se movimenta para um fenômeno em processo. "Não posso dizer que o cordel acabou porque mudou a relação com o campo. Traduzido para outros códigos artísticos, ele interage com outras culturas, ganha complexidade e isso faz com que o discurso permaneça". O assunto rende.

O editor Marcelo Soares, da Folhetaria Cordel, diz que antes de publicar um autor é preciso avaliar alguns critérios. "O poeta precisa ter um trabalho consistente, mostrar preocupação com a qualidade do verso, ser melódico e ter métrica, oração e rima". Ou seja, no papel ou na web, só os bons sobrevivem.


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