quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sangue, vingança, mito e música na Paraíba

Vista panorâmica da cidade paraibana
O paraibano Chico César já havia retratado a fama da sua cidade natal em música:

"Vozes de faca cortando
Como o riso da serpente
São sons de sins, não contudo
Pé quebrado verso mudo
Grito no hospital da gente
Catolé do Rocha
Praça de guerra
Catolé do Rocha
Onde o homem-bode berra
Bari bari bari
Tem uma bala no meu corpo
Bari bari bari
E não é bala de côco"

Esse é um trecho da música Beradêro, que coloca a valentia e a vingança dos paraibanos de Catulé do Rocha em evidência. No último domingo, a série de assassinatos que tem acontecido na cidade nos últimos trinta anos foi tema de uma reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo. Confira abaixo:



O compositor e cantor, filho nobre da cidade de quase 30 mil habitantes, localizada há mais de 400 km da capital João pessoa, explicou, em entrevista, o porquê da música inspirada na cidade natal e, segundo ele, até Lampião evitou passar por lá. Leia a resposta completa:

"Catolé do Rocha, praça de guerra". O que é a praça de guerra de Catolé? 
Catolé é uma cidade que tem uma tradição, ou talvez, até um mito, de ser uma cidade bastante violenta, de famílias tradicionais que se enfrentam, onde as pessoas sempre falam, "Em Catolé, as pessoas matam um e deixam outro amarrado para matar no dia seguinte!" Isso tudo, na verdade, é fantasia. E há uma outra fantasia que é a seguinte: Lampião nunca passou em Catolé. Ele estava em Pombal - que é uma cidade antes de Catolé, e Catolé fica no caminho para o Rio Grande do Norte - e mandou um espiar ver como estava a cidade. Ele sempre mandava alguém. Aí, o cara voltou e falou, "Capitão, tá todo mundo armado na cidade. De foice, bodoque, espingardinha de chumbo. A cidade inteira está lhe esperando pra quebrar o pau! Aí Lampião fez uma volta mais longa pra ir onde ele queria. E não passou por lá. Então, Catolé tem esse negócio. Existe, no Rio de Janeiro, uma praça chamada Catolé do Rocha, que foi onde começou a matança de Vigário Geral. A polícia chegou - foi uma vingança contra umas mortes que havia acontecido contra a polícia do Rio de Janeiro - e matou uns quatro ali no bar, que ficava na praça. E dali entrou em Vigário Geral. Matou uma família inteira e... Essa praça chama-se Catolé do Rocha que, provavelmente, é uma homenagem à minha cidade. As pessoas que começaram morando ali há muitos anos eram da cidade. Eu já tinha a música "Béradêro" e estava na Paulista - naquela banca quase em frente ao cinema Belas Artes, quase em frente à livraria, na esquina da Paulista com a Consolação - e vi, desenhadinho no jornal, as cenas do crime. Aí, praça Catolé do Rocha. Li tudo e saí andando com o negócio na cabeça. E aí nasceu essa última estrofe que fala do "Catolé do Rocha, praça de guerra / Catolé do Rocha, onde o homem-bode berra". Pra mim, era como se a minha cidade, com o seu ambientezinho rural, da violência rural, da violência entre famílias, de machezas, se transferisse para a violência urbana, no Rio de Janeiro, com o ambiente do tráfico, da polícia. Compus na rua mesmo. Cheguei em casa e juntei com o resto da música que já existia e que já cantava antes. Agora eu canto sempre. As pessoas em Catolé acham que é uma homenagem à cidade. E é, também. Nasceu disso.

Ouça a música no vídeo abaixo:

Um comentário:

NETO disse...

Muito boa a reportagem. Assistir esse documentário no fantastico.
Parece que ainda estamos vivendo no século 19 e 20.
Caro amigo, queria muito encontrar minhas raízes. Meu avô nasceu em Catolé do Rocha na Paraíba, meu pai falou que era numa comunidade no pé de uma serra, depois veio morá na cidade de João Câmara no RN. A família do meu avô é dos ferreira. Gostaria muito de encontrar algum parente ai. Até pra saber se alguns deles no século passado, foram envolvidos no cangaço.
Atenciosamente,
Neto - Natal/RN