sábado, 18 de fevereiro de 2012

CORDEL: O Carnaval de Olinda e a Primeira Vez de Genésio




A convite de Rodrigo
Um primo muito legal
Viajei quase três horas
Com destino à capital
Para ir até Olinda
Conhecer seu carnaval.

No Sábado de Zé Pereira
(Lá se diz Sábado do Galo)
Cheguei bem cedo no TIP
E fiquei a esperá-lo
E andei tanto lhe esperando
Que no pé ganhei um calo.

Quando o primo apareceu
Já chegou agoniado
Dizendo: - vamos, Genésio
Que a gente está atrasado
O Galo está já saindo
- Eita folião danado!


E ele tinha razão
O galo não demorou
É que na pressa, meu primo
Num batente tropeçou
Bateu com a testa no chão
E nela um galo ganhou.

Nós seguimos de metrô
Para o centro da cidade
Os vagões foram se enchendo
De foliões de verdade
Para chegar lá no Galo
Era grande a ansiedade.

Tinha gente pra dedéu
Em tudo quanto é lugar
Tinha até dentro do rio
Você pode acreditar
Nas ruas, um imprensado
No céu, um sol de lascar.

Já perto das duas horas
O Galo fervia ainda
Então meu primo Rodrigo
Encontrou-se com Lucinda
Que chamou a gente para
Ir brincar lá em Olinda.

E do Galo pra Olinda
Seguimos num desadoro
Lucinda deixou o carro
Lá perto do Giradouro
A essa altura meu calo
Já tinha largado o couro.

Andamos quase uma légua
Para chegar na folia
E eu já de pernas bambas
Sem carga na bateria
Mas depois de um retetéu
Recobrei a energia.


Subi e desci ladeiras
Sem pagar qualquer promessa
Muitas vezes não sabia
Se ía por essa ou essa
Mas seja qual fosse a escolha
Sempre tinha gente à beça.

De vez em quando um batuque
É que puxava a folia
O povo manifestado
Os batuqueiros seguia
Era um xangô arretado
Que até de longe se ouvia.

Para cortar o caminho
Entre becos me joguei
Mas com o fedor de mijo
Até mal quase passei
Ô imundície da gota!
Por pouco não vomitei.

Segui o Boi da Macuca
Com Benedito no fole
A essas alturas eu
Já estava todo mole
Pois cada latinha era
Tomada de um só gole.

Quando passou Flor da Lira
Eu quase me desmantelo
Inventei de dar em cima
Da garota do flabelo
Mas seu noivo chegou junto
E eu quase fiquei banguelo.

Na Rua Treze de Maio
Eu gritei: Ó, Virgem Santa!
Eu duvido outro lugar
Ter tanta coca que é fanta
Lá, a turma do arco-íris
Sua bandeira levanta.

Lá é grande o desmantelo
É dantesco o alvoroço
Naquela aglomeração
Vê-se moça e vê-se moço
Das frutas as mais diversas
Chupando até o caroço.

Às vezes pensava estar
Em Sodoma ou em Gomorra
Ao ver o “Segurucu”
Ou “Diz que Me Ama, Porra!”
Quem não agüentar rojão
Pra bem longe deles corra.

Corra também do Patusco
Se afaste do D´Breck
Se duvidar do que digo
Com os próprios olhos cheque
Fuja de lá se benzendo
Ou também vire moleque.

Porque a troça é Ceroula
Descobri naquele dia
Pois entrei no rugerruge
Vestido, mas na agonia
Eu saí só de cueca
Mesmo assim quase a perdia.

Faltou chão e faltou fôlego
Cheguei até flutuar
Quando chegou no Amparo
Fiquei suspenso no ar
Juro que pensei que o mundo
Estava pra se acabar.


Lá na Bodega de Véio
Eu jantei pão com salame
Só pensando no cuscuz
Em macaxeira e inhame
Mas primo disse:- encha o bucho
Lamba o beiço e não reclame

Tudo isso foi fichinha
É verdade, meu amigo
Porque lá nos Quatro Cantos
Enfrentei maior perigo
É que o Tarado da Sé
Quase acabava comigo. 

Lá ia eu todo ancho
Dentro da troça animada
Quando a calunga girou
E me deu uma mãozada
Que eu fiquei zonzo, zonzo
Com aquela chapuletada.

Anoiteceu e então
Pensei que teria fim
Esta cruel maratona
Mas Rodrigo disse assim:
Vamos lá pro Guadalupe
Pra saída do Alafim.

E depois do Alafim
Sonhava eu com a pernoite
Mas fomos pro Bonsucesso
Enfrentar um novo açoite
Na saída do boneco
O Homem da Meia Noite.

A Cidade Alta inteira
Num só dia eu conheci
E já nascendo o domingo
Alegrei-me quando eu vi
Rodrigo entregar os pontos
Na sede do Cariri.

Mais de cinco da manhã
Foi que em casa chegamos
Depois de tanta folia
Rodrigo e eu apagamos
Às onze horas, o primo
Acordou dizendo: - Vamos?

- Vamos pra onde, sujeito
Será que dei na mãe minha?
Disse ele: - pra Olinda
Nossa turma está todinha
Nos esperando na troça
Tanajura com Farinha.

É capaz de já estarem
No Mosteiro de São Bento
Respondi-lhe: - Pode ir
Outra dessa eu não agüento
Vou ficar aqui sozinho
Nas pernas passando ungüento.

Quando passou o cansaço
Pra meu lugar eu voltei
O resto do carnaval
Só descansando passei
Ouvindo “pa-pa-pa-pa...”
Por muitos dias fiquei.

E agora, tempos depois
Lembranças chegam na mente
Desse carnaval tão louco
Tão típico, tão diferente
Que por mim não vou perder
Mais nenhum daqui pra frente.

FIM

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