quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O Bruto também ama?


Texto do jornalista Glauber Lacerda, publicado em seu blog Fi de Zé, sobre o encontro com o rei do mau humor, o afamado Seu Lunga, no ano de 2008. Para encarar o cearense mais ranzinza do mundo, Glauber estava com o professor Antonio Andrade e o forrozeiro Andrade de Sertânia. Confira os vídeos no fim da postagem. 


O sorridente Glauber e o velho Lunga, em Juazeiro do Norte (CE)
A literatura de cordel tem o poder de construir mitos ao ponto de torná-los verdadeiros arquétipos*. Desta maneira, poetas e cantadores, em versos dos mais diferentes estilos, mitificaram Joaquim dos Santos Rodrigues, metamorfoseando-o no arquétipo de homem grosso, enfezado, bruto, pai d’égua, ignorante, “popêro”. Mesmo não sendo conhecido pelo nome de batismo e sem citar a alcunha imortal do sujeito, já dar para o leitor fazer uma fezinha certeira sobre o nome do cabra. Se ainda resta dúvida, o nome dele é Seu Lunga.

Em Juazeiro do Norte (CE), nós – Glauber Lacerda (o sorridente da foto), Andrade Leal, Andrade Sertania e Ana Sertania– encontramos pessoalmente com ele. Um dia antes do encontro, fomos até a casa de Seu Lunga para saber se ele podia nos atender. A filha dele, que estava entrando em casa no momento de nossa chegada, pediu para procurá-lo no dia seguinte. Ele estaria, cedinho, em sua oficina, na Rua Santa Luzia. Nem adiantava prolongar a prosa, Lunga não recebe curioso em casa.

Às 8h, já estávamos na tal rua, pedindo informação para encontrarmos o afamado “rei do mau humor”. A ansiedade era unânime para saber como seríamos recebidos. Tínhamos a romântica esperança que teriamos uma recepção ríspida, digna de Satanás em igreja de crente, assim poderíamos espalhar por aí que o temperamento de Seu Lunga, dos cordéis e das piadas, não é romanceado, ou seja, o cabra seria bruto feito cadela parida "mermo". Batemos a boca no arame, encontramos um homem inesperado.

Logo na porta do estabelecimento, a primeira visão da lenda. Atrás de um monte de ferro velho, parafusos, calçados usados, arreios, avistava-se a ponta do chapéu do figura, como o cume de um “iceberg seco”. Os trinta minutos que estivemos com o suposto ranzinza não foram suficientes para conhecê-lo perfeitamente. Até porque, segundo ele, para uma pessoa conhecer outra, é preciso comer “uma saca de sal” juntas**. Haja feijão para temperar e almoço para comer na mesma mesa! Com esse discurso, Lunga se defende, fala que é muito caluniado pelo povo.

À primeira vista, Seu Lunga não tem nem a santidade do seu xará, o avô de Jesus, São Joaquim, nem a grossura de um cano de esgoto. Foi marcante conhecer outro lado do mito, sem a necessidade de desmitificá-lo, visto que são claras algumas ligações entre a personagem fictícia e a real, principalmente, no quesito intolerância para “imbecilidades”.
Descobrimos nele o poeta, o conhecedor de muitos dizeres, o devoto de Padre Cícero. Para que cada um tire suas conclusões, vai aí todo nosso encontro filmado.

Talvez os “politicamente corretos”, doravante, pensarão duas vezes antes de chamar um sujeito "brabo" de Seu Lunga. Já quem não cumpri esses protocolos, e acredita que o mitos são muito mais interessantes que as pessoas reais, apenas assistam e continue propagando as ilustres respostas do lendário pai d'égua do Sertão do Cariri.

*O autor não tem conhecimento profundo sobre o tema, portanto, arquétipo, nesse sentido, tem uma conotação vulgar. Consiste em dar o nome de determinado personagem que possui alguma característica marcante a outrem que também a possui. Por exemplo: o sujeito metido a esperto é chamado de João Grilo, portanto, João Grilo é o arquétipo de esperteza.
** Extraído da monografia "A fantástica contrução do nordestino Seu Lunga", de Ester Lindoso. 






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