quarta-feira, 28 de março de 2012

J. Borges: O artista do sertão

Reportagem publicada em 2002 na revista Época

Quase sem estudo e autodidata na arte, o pernambucano J. Borges comove o mundo com imagens dos folhetos de cordel (por EDUARDO BURCKHARDT)


As paredes empoeiradas de um ateliê à beira de uma estrada de chão no município de Bezerros, no agreste pernambucano, estão abarrotadas de obras de arte que já dividiram espaço no Museu do Louvre com Leonardo da Vinci e Botticelli. Sentado numa banqueta capenga de madeira, José Francisco Borges, de 66 anos, o autor das peças, espreita os visitantes como um matuto cabreiro. Ninguém desconfia que ele é um dos artistas folclóricos mais celebrados da América Latina. Apenas em uma turnê, J. Borges, como ficou conhecido, percorreu 20 países europeus. Neste ano, foi tema de uma reportagem no jornal The New York Times. Apontado como um gênio da arte popular, teve um lote de xilogravuras de sua autoria arrematado por US$ 30 mil num leilão nos Estados Unidos. O dinheiro, no entanto, não foi para o bolso do artista. Ficou com um colecionador americano que garimpa exemplares raros de obras folclóricas.

Depois de cair nas graças dos principais curadores de arte popular do mundo, J. Borges foi convidado para dar palestras nos EUA, na França, na Venezuela e na Suíça. Ministrou aulas sobre xilogravuras e cultura do cordel com a ajuda de tradutores. Com a venda das obras e os cachês das palestras garante cerca de US$ 3 mil por viagem ao Exterior. 'Mas não sou rico, não! Gasto quase tudo para pagar minhas dívidas e comprar material para novas obras', diz Borges. 'Não daria para viver apenas com o que vendo aqui.' No ateliê, uma xilogravura sai por R$ 20 e cada cordel R$ 1. É o artista que sustenta toda a família. E que família. São dez filhos, a mulher e duas ex. Atualmente ele vive numa casa simples de dois quartos com quatro filhos e a terceira esposa.

Apesar da vida dura, as conquistas de J. Borges são uma grande vitória para um sertanejo vindo de um ambiente de dificuldades. Ele nasceu no povoado de Piroca, na paupérrima Bezerros. Filho de agricultores, aos 8 anos já empunhava a enxada. Foi para a escola só aos 12, mas a freqüentou apenas dez meses. 'Resolvi sair pela vida.' Foi marceneiro, mascate, pintor de parede e oleiro. Aos 20 anos, juntou uns trocados e comprou cordéis de outros escritores para vender nas feiras. J. Borges escrevia os próprios versos às escondidas, por vergonha. Em 1964, aos 29 anos, publicou a primeira obra: O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina. Vendeu 5 mil exemplares em dois meses. Sua principal arte, porém, não são os versos, e sim a xilogravura. A descoberta foi por acaso. Sem dinheiro para comprar as chapas de zinco que serviam de base para a confecção das capas dos cordéis, pegou um pedaço de imburana e talhou uma igrejinha. O desenho tosco estampou a capa de seu segundo trabalho, O Verdadeiro Aviso de Frei Damião. Seguiu colocando na madeira o ideário sertanejo: o diabo, Lampião, prostitutas, vaqueiros, festas de São João.

'A Chegada da Prostituta no Céu'
é o cordel de maior sucesso
de J. Borges e vendeu 100 mil exemplares
A partir de 1970, J. Borges começou a receber pedidos para ampliar seus trabalhos em preto e branco. 'Não sabia por que aquele povo da cidade queria tanto meus desenhos ruins', diz ele. As obras chegaram até o escritor Ariano Suassuna, que virou seu padrinho. Os trabalhos passaram a circular nos meios acadêmicos e artísticos, que antes viam com desdém a xilogravura. As ilustrações de J. Borges estamparam capas de discos e livros, como As Palavras Andantes, do escritor uruguaio Eduardo Galeano.

Atualmente, o artista anda às voltas com a divulgação do livro Memórias e Contos de J. Borges. A obra, de 300 páginas e 187 ilustrações, foi impressa numa máquina tipográfica do fim do século XIX que ele mantém no ateliê. Quando cansou do preto-e-branco, J. Borges elaborou uma técnica que permitiu colorizar as xilogravuras. Sua A Vida na Floresta foi incluída no calendário de um encontro da Organização das Nações Unidas. Em setembro, ele viaja a convite de museus de Nova York, Pensilvânia, Colorado e Texas. Como se vira só com o português? 'Sou matuto, mas não sou burro.'
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