sexta-feira, 3 de junho de 2011

Poetas populares: Leandro Gomes de Barros

Paraibano de Pombal, Leandro Gomes de Barros (1865-1918) fugiu de casa aos onze anos por conta dos maus tratos de um padre que era seu tio. Até os 15 anos, viveu em Teixeira, cidade berço de muitos cantadores, depois foi para Vitória de Santo Antão, em Pernambuco, onde se casou e teve filhos.

Estima-se que Leandro escreveu mais de 600 títulos, das quais foram tiradas mais de 10 mil edições. Chegou a ter sua gráfica própria e sua obra continuou sendo editada pela família mesmo após sua morte. Em 1921, os direitos autorais de Leandro foram vendidos pela viúva a João Martins de Athayde, que chegou a publicar folhetos omitindo o autor e modificando o acróstico na estrofe final.

Pioneiro na produção literária de cordel no Brasil, o poeta foi autor de folhetos de grande aceitação popular, como:

A Batalha de Oliveiros e Ferrabas, História da Donzela Teodora, A Morte de Alonso e a Vingança de Marina, A Vida de Cancão de Fogo e seu Testamento, A Vida de Pedro Cem, Baman e Gercina – o Príncipe e a Fada, Casamento e Divórcio da Lagartixa, História de João da Cruz, História do Boi Misterioso, Juvenal e o Dragão, O Cachorro dos Mortos, O Cavalo que Defecava Dinheiro, O Dinheiro (O Enterro do Cachorro) e A Órfã Abandonada.

Estas e outras obras serviram de inspiração para grandes escritores, como é o caso de Ariano Suassuna:

“Os cordelistas me influenciaram tanto quanto Lorca, que tem um mundo de cavalo, boi, cigano e romanceiro popular parecido com o meu, ou Calderón de la Barca; para mim o príncipe dos poetas brasileiros é Leandro Gomes de Barros, autor de dois dos três folhetos em que me inspirei para escrever o Auto da Compadecida: O Enterro do Cachorro e O Cavalo que Defecava Dinheiro”.


Outro escritor que revelou admiração à obra do poeta paraibano foi Carlos Drumond de Andrade, comparando-o a Olavo Bilac e questionando a eleição deste, pela revista Fon-Fon, como príncipe dos poetas brasileiros:

“Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo o resultado a má infomação porque o título, a ser concedido, só poderia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista Fon-Fon, mas vastamente popular no Nordeste do país, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor de ‘Ouvi Estrelas’. E aqui desfaço a perplexidade que algum leitor não familiarizado com o assunto estará sentindo ao ver defrontados os nomes de Olavo Bilac e Leandro Gomes de Barros. Um é poeta erudito, produto da cultura urbana e burguesa média; o outro, planta sertaneja vicejando à margem do cangaço, da seca e da pobreza. Aquele tinha livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebiam com flores. Este, espalhava seus versos em folhetos de cordel, de papel ordinário, com xilogravuras toscas, vendidos nas feiras a um público de alpercatas ou pé no chão. A poesia parnasiana de Bilac, bela e suntuosa, correspondia a uma zona limitada de bem-estar social, bebia inspiração européia e, mesmo quando se debruçava sobre temas brasileiros, só era captada pela elite que comandava o sistema de poder político, econômico e mundano. A de Leandro, pobre de ritmos, isenta de lavores musicais, sem apoio livresco, era o que tocava milhares de brasileiros humildes, ainda mais simples que o poeta, e necessidade de ver convertida e sublimada em canto a mesquinharia da vida. Não foi príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão, e do Brasil em estado puro”.

Para finalizar, alguns versos de O Testamento do Cachorro:

“Um inglês tinha um cachorro
De uma grande estimação
Morreu o dito cachorro
E o inglês disse então:
- Mim enterra essa cachorra
Inda que gaste um milhão.

Foi ao vigário e lhe disse:
- Morreu cachorra de mim
E urubu do Brasil
Não poderá dar-lhe fim...
- Cachorro deixou dinheiro?
Perguntou o vigário assim”

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