sexta-feira, 18 de maio de 2012

Luiz Gonzaga inspira a literatura popular desde a década de 1950

A literatura popular em versos do nordeste do Brasil, hoje denominada literatura de cordel, já publicou inúmeros folhetos de cordel sobre Luiz Gonzaga, e outras personalidades célebres na região: Padre Cícero, Getúlio Vargas Delmiro Gouveia, Frei Damião, João Paulo II.

Depois da morte de Luiz Gonzaga, em 2 de agosto de 1989, houve uma verdadeira explosão na produção de folheto de cordel sobre o Rei do Baião, e na internet hoje existe grande biblioteca eletrônica sobre o assunto, alimentando sites, blogs, facebook.

Vem de longe o interesse dos poetas populares pelo Rei do Baião. A primeira biografia dele, Zé Praxedes Apresenta Luiz Gonzaga e Suas Poesias, de 1952, de autoria do poeta popular norte-rio-grandense e declamador José Praxedes, é escrita em versos igual a qualquer folheto de cordel, embora versos matutos.

Em 1957, o poeta popular Manuel d’Almeida Filho publicou um folheto O Baú de Carolina, inspirado no personagem de uma música de sucesso de Luiz Gonzaga, O Chêro de Carolina, lançada na época da publicação desse folheto.

Assim que Luiz Gonzaga morreu, em 1989, houve uma explosão de publicaçoes dos poetas populares sobre o clamor do Brasil à grande perda, o seu sepultamento em Exu, a trajetória, e a imortalidade do Rei do Baião.

Alguns títulos desse segmento cordeis sobre Luiz Gonzaga são de conteúdo fantástico, do gênero dos folhetos bastante populares, A chegada de Lampião no Inferno, Diálogos de Padre Cícero e Frei Damião no Céu.

Seis anos depois da morte de Luiz Gonzaga, o poeta paraibano Pedro Bandeira, radicado no Crato, no Ceará, organizou um livro, Luiz Gonzaga na Literatura de Cordel, coletânea de poesias e folhetos de cordel publicados sobre ele, incluindo uma poesia fantástica de autoria de Pedro Bandeira, O Rei Chegando no Céu, cujo mote é o ciúme de São Pedro porque Luiz Gonzaga somente privilegiara São João em suas músicas.

O livro Luiz Gonzaga na Literatura de Cordel, publicado em Juzeiro do Norte-CE, em 1994, reune dezenas de poesias e folhetos de outros autores, além do organizador da obra Pedro Bandeira. Entre eles, Abraão Batista, João Bandeira, Paulo Nunes Batista, Paulo de Tarso B. Gomes, Cícero do Nascimento do Caicó, Zé Paraíba.

De lá para cá não tem mais cessadado o interesse dos poetas populares por Luiz Gonzaga, a ponto do pesquiador paraibano Antônio Kydelmir Dantas, radicado em Mossoró-RN, autor de livros e folhetos de cordel sobre Luiz Gonzaga, ter feito o maior levantamento de folhetos de cordel sobre o Rei do Baião que se tem notícia no Brasil. Já são cerca de duzentos títulos!

Centenário de Luiz Gonzaga inspira novos folhetos 
O centenário de Luiz Gonzaga celebrado neste ano está inspirando novos cordéis alusivos à magna data. O historiador escritor e cordelista Ivaldo Batista (ivaldoescritor@hotmail.com), autor de vasta obra publicada, já lançara em 2011, em Carpina-PE, o folheto Centenário do Rei do Baião 1912-2012.

As estrofes seguintes desse folheto exaltam e agradecem ao Rei do Baião glória de Pernambuco para a humanidade:
Com roupa de Virgolino 
Exaltou todo sertão 
Decantou a asa branca 
Assum Preto e azulão 
Acauã e carcará 
Que voa feito avião 

Se exemplo foi beleza 
Estando lá o roçado 
Ou no topo de sua fama 
Pelo tempo coroado 
Esse gênio da cultura 
Mereceu esse reinado 
Olha pro céu meu amor 

Pernamuco te agradece 
Por cantares nossas cidades 
Tua música nos enobrece 
Nos versos dos teus poemas 
Nossa gente é quem mais cresce 

O poeta popular Paulo de Tarso (pb-gomes@hotmail.com) também publicou o seu folheto sobre a data magna de Luiz Gonzaga, O Gonzagão Centenário. As estrofes seguintes do folheto narram a origem de Luiz Gonzaga e a famosa surra causada por um namoro proibido.
Sua mãe, dona Santana, 
Uma exímia cantadeira, 
Cantava muitos benditos, 
Vendia cordas na feira, 
Cuidava também das roças, 
Era excelente rendeira. 

Muito ligeiro Santana 
Pra Januário contou 
O ocorrido na feira 
E ao Gonzaga perguntou: 
-Então você é valente 
Eu seu Raimundo jurou? 

Nessa família sujeito 
Nós não temos assassino, 
Você é só um pixote, 
Ainda quase menino. 
E o chicote foi descendo, 
Dando em Luiz um ensino 

Paulo de Tarso é também coautor do livro Luiz Gonzaga Na Literatura de Cordel, organizado por Pedro Bandeira, participando com dois títulos, A morte do Rei do Baião, e A trajetória do Rei do Baião.

A maldição da toada Asa Branca 
Por incrível que pareça, a música mais famosa de Luiz Gonzaga, a toada Asa Branca, motivou um folheto de cordel escadaloso contra o Rei do Baião, intitulado Horrores que a Asa Branca traz Profetisado pelo Frade Frei Damião, de autoria do poeta Vicente Vitorino Melo, publicado em Caruaru-PE (1948), reeditado em Campina Grande-PB (1954).

O folheto narra “os grandes exemplos” do famoso missionário franciscano capuchinho, numa Missão dele na cidade de Sobral, no Ceará, pregando contra ditados, modas, orgias, e a moda da Asa Branca, “obra de satanaz”.

A Asa Branca que canta a falta d’água, o gado morrendo de sede, o Criador tem mandado chuva com pedra e vento. Deus manda relâmpago e tempestade, cheia e açudes arrombado para matar a sede do alazão. Quando diz na fornalha um pé de plantação, será da árvore maldita do fruto da perdição:

“Aviso a todos os cristãos/Em nome de Deus amado/Que não cante a Asa Branca/Deixe as modas e o ditado/Quem não ouvir meus conselhos/De Deus será castigado”, aconselha Frei Damião no folheto de cordel de Vicente Vitorino.

(Do site Museu Luiz Gonzaga, por Xico Nóbrega)

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